domingo, 21 de junho de 2026

A FALÊNCIA DA EDUCAÇÃO SUPERIOR NO BRASIL

Dados relativos ao acesso e à universalização do ensino superior no Brasil tem sido divulgados pela grande mídia e pelo próprio governo federal como sinônimo de sucesso das políticas educacionais ao longo das duas ou três últimas décadas.  

Segundo o IBGE, o percentual de adultos com diploma universitário triplicou no século, refletindo os seguintes marcos recentes: Em 2010 11,3% da população brasileira tiveram acesso ao nível superior no Brasil. Em 2022, isto é, 12 anos mais tarde, esse percentual saltou para 18,4% da população. Ou seja, considerando apenas esses dados, houve um crescimento significativo quanto à universalização do ensino superior em pouco mais de uma década.
Nessa mesma linha de consideração, dados do INEP relativos ao período de 2014 a 2024 apontam indicadores promissores quanto ao número de ingressos dos alunos no ensino superior: 
a) Bacharelado: houve incremento de 54,7% no período.
b) Licenciatura: houve acréscimo de 16,2%.
c) Tecnólogo: aumento de 29,1%.

Ou seja, sob o ponto de vista da pura estatística educacional, deveríamos nos orgulhar do desempenho mais do que satisfatório apresentado. Só por esses números, a universalização do ensino superior no Brasil está sendo um sucesso e caminha a passos largos para oportunizar a mais pessoas a possibilidade de concluir um bacharelado ou uma licenciatura.  

Enquanto educador, porém, prefiro receber tais resultados com reservas. Há mais de 30 anos exerço a atividade docente. Desses, 8 anos dedicados ao magistério superior em universidades públicas. Primeiramente, na Universidade Federal do Amazonas e atualmente na Universidade do Estado do Amazonas.  Portanto, posso falar com segurança sobre minha experiência em sala de aula que, adianto, não tem sido das melhores. O perfil da grande maioria de quem chega ao Bacharelado em Contabilidade - sou professor de Ciências Contábeis - está muito aquém do nível desejado. 

Em 1986, iniciei meu primeiro curso superior: o de Ciências Contábeis (tive mais 3 aprovações em vestibulares para a UFAM: Química, Psicologia e Direito). Há época, só existia a Universidade Federal do Amazonas como instituição de ensino superior no Amazonas. A concorrência, portanto, era muito acirrada. Quando lá cheguei, o perfil de meus colegas de sala de aula era completamente diferente do perfil que testemunho atualmente. Existia um absurdo interesse pela leitura e aprendizado. O esforço do alunado era patente, refletido em notas muito boas e desempenhos elevados. Havia, inclusive, uma saudável disputa entre os alunos sobre quem alcançava as melhores notas.  

Trago à discussão, preliminarmente, os dados publicados pelo Conselho Federal de Contabilidade quanto aos exames de suficiência realizados nos anos de 2025, 2024 e 2023. Para quem não sabe, o exame de suficiência equivale ao Exame da Ordem dos Advogados do Brasil. Quem postula exercer a profissão de Contador é obrigado a ser nele aprovado.  Os dados apresentados a seguir foram coletados do site do Conselho Federal de Contabilidade (Resultados - Exame de Suficiência) e dizem respeito ao desempenho das instituições de ensino  superior em Contabilidade localizadas no Estado do Amazonas, inclusas, portanto, a Universidade Federal do Amazonas e a Universidade do Estado do Amazonas. Vamos aos números:

2023: neste ano foram realizadas duas edições do exame.  Na primeira edição o percentual de reprovação alcançou 92,17%. Ou seja, apenas um aluno em 10 entre os que prestaram o exame obteve aprovação. Na segunda edição, o percentual de reprovados foi de 87,27%. 

2024: na primeira edição o percentual de reprovados foi de 61,32%, enquanto na segunda edição alcançou 93,20%, maior, portanto, que o desempenho apresentado na primeira edição do exame de 2023. 

2025: a primeira edição apresentou 62,08% de reprovados contra 85,64% da segunda edição. 

Ou seja, só por esses números já se vê a qualidade do ensino/aprendizado do ensino superior de Contabilidade. São números que nos deixam "de boca aberta" de tão ruins que são. 

Se deslocarmos o eixo de análise - agora considerando a região - a Região Norte aparece em primeiro lugar quanto ao número de reprovados. Vejamos:

2023: na primeira edição o percentual de reprovados na Região Norte foi de 91,27% contra 85,23% (Centro Oeste), 84,56% (Nordeste), 80,23%  (Sudeste) e 78,24% (Sul). Na segunda edição: 89,70% (Região Norte) contra  84,31% (Centro Oeste), 85,12% (Nordeste), 80,56%  (Sudeste) e 79,03% (Sul). 

2024: na primeira edição o percentual de reprovados na Região Norte foi de 65,41% contra 56,36% (Centro Oeste), 53,69% (Nordeste), 65,76%  (Sudeste) e 62,75% (Sul). Na segunda edição: 92,46% (Região Norte) contra  89,13% (Centro Oeste), 88,25% (Nordeste), 77,07%  (Sudeste) e 86,03% (Sul). 

2025: na primeira edição o percentual de reprovados na Região Norte foi de 82,95% contra 74,19% (Centro Oeste), 70,34% (Nordeste), 48,25%  (Sudeste) e 52,77% (Sul). Na segunda edição: 60,77% (Região Norte) contra  53,39% (Centro Oeste), 49% (Nordeste), 47,57%  (Sudeste) e 46,12% (Sul). 

A região que menos apresenta número de reprovados é a região sul, mas, ainda assim, com números que causam preocupação com o rumo do ensino de Contabilidade no Brasil.

Considerando, porém, apenas as duas instituições superiores de ensino de Contabilidade que integram o setor público no Amazonas, os percentuais de reprovados foram os seguintes: 

2025: na primeira edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 27,03% contra 39,39% da Universidade do Estado do Amazonas. Na segunda edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 29,41% contra 41,67% da Universidade do Estado do Amazonas.

2024: na primeira edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 29,09% contra 45,26% da Universidade do Estado do Amazonas. Na segunda edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 90,00% contra 83,02% da Universidade do Estado do Amazonas.

2023: na primeira edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 77,23% contra 68,75% da Universidade do Estado do Amazonas. Na segunda edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 72,22% contra 74,19% da Universidade do Estado do Amazonas.

Ou seja, visto por essa perspectiva, os números não são nada animadores. Muito pelo contrário. Resta a dúvida em torno da seguinte questão: até que ponto a universalização do ensino superior no Brasil foi, está sendo e será eficaz? Até que ponto a política educacional brasileira está no rumo certo? Será que nós não estamos perseguindo mais a quantidade quando poderíamos e deveríamos nos debruçar sobre a qualidade do ensino superior no Brasil? 

Alguém, contudo,  poderia argumentar: mas essa realidade expressa única e exclusivamente o desempenho do Curso de Ciências Contábeis. De fato, os números refletem a qualidade do ensino contábil no Brasil. No entanto, os números dos exames da Ordem dos Advogados não são muito diferentes disso não. A taxa média de reprovação gira em torno de 70% a 80%. Ou seja, é também um número assustador. 

Quanto aos demais cursos (Engenharia, Medicina, Odontologia, Arquitetura, Geologia etc) não há dados, pois tais cursos não possuem um "exame de suficiência". No entanto, isso causa mais preocupação que consolo. Se aplicássemos um exame similar em tais cursos será que a realidade seria muito melhor? Qual a qualidade dos médicos que ganham os consultores médicos e hospitais públicos na atualidade??? Será que podemos confiar cegamente em sua qualificação tomando por referência apenas a qualificação alcançada em sua graduação??? E quanto aos odontólogos, o que dizer deles? Será que os engenheiros reúnem, de fato, condições para elaborarem plantas e croquis? Ou será que todos nós e a sociedade brasileira como um todo está correndo um risco sistêmico e generalizado sem se dar conta disso? Você se submeteria a um tratamento médico conduzido por um médico recém-formado???   Olha... (melhor não pensar muito nisso). 

O ensino superior no Brasil virou negócio. Sinônimo de lucro. Há muitas universidades e faculdades particulares que são verdadeiras empresas. Buscam unicamente o lucro e não têm compromisso com a qualidade do ensino. Nelas, a regra prevalecente é: É PROIBIDO REPROVAR! A reprovação significa a fuga do aluno e, consequentemente, menos receitas no final do mês. Converse com qualquer professor que lá ensino e colha sua opinião. Você ficará estarrecido! Não há fiscalização. Não há controle de qualidade. Não há absolutamente nada que freie essa prática no Brasil. Por isso, o ensino está do jeito que está. 

Nas universidades públicas a coisa não é diferente. Existe uma massa de manobra que, na base do "jeitinho" pressiona os professores à aprovação de seu alunado. Vale qualquer coisa para engrossar as estatísticas da aprovação: notas dadas graciosamente, complemento de notas, trabalhos feitos de qualquer jeito apenas para se ter uma justificativa para a nota atribuída. A regra é a mesma: É PROIBIDO REPROVAR! Já ouvi de coordenadores de cursos que a reprovação dos alunos significarão baixas notas na avaliação da instituição no Enade. Então fica assim: "eu te aprovo e você me aprova, ok?".

Por outro lado, retiraram as travas que funcionavam como barreiras para impedir o acesso ao ensino superior de candidatos que não reunissem condições de lá estar. Não que o ensino superior deva acolher um "conjunto de notáveis". Não é isso. Devemos, sim, promover a universalização do ensino superior, mas com RESPONSABILIDADE. Não de forma indiscriminada, como ocorreu nas últimas três décadas. 

A figura a seguir retrata a mudança no sistema da educação superior no Brasil:




Note que antes era o postulante ao ensino superior que tinha a responsabilidade por se qualificar para ingressar no curso desejado. Agora, a configuração mudou. Foram as instituições de ensino superior que tiveram de se (des)qualificar para oportunizar o ingresso dos candidatos. Ou seja, foram as instituições de ensino superior que tiveram de se adaptar às condições dos estudantes postulantes ao bacharelado/licenciatura, quando deveria ser o contrário.  Isso promoveu uma queda brutal na qualidade do ensino público superior nacional.

Na base de tudo isso o próprio sistema educacional brasileiro cuidou para evitar a reprovação nos ensinos médio e fundamental. A fórmula é a mesma: É PROIBIDO REPROVAR! Reprovar é ruim para as estatísticas! Por isso, muitos professores das escolas públicas sofrem e até adoecem frente a esse estado de coisas. O resultado é uma aprovação em massa de alunos que não tem a mínima condição de se  sustentarem em voos mais altos. Quando chegam ao ensino superior, o prejuízo é grande.

Dados divulgados recentemente pelo  Centro para Rankings Universitários Mundiais (CWUR) apontam queda nas 45 universidades das 52 universidades brasileiras que integram o ranking. Isso representa 87% das instituições. Apenas cinco universidades brasileiras subiram de posição, enquanto duas mantiveram seus postos e 44 tiveram queda especificamente no indicador de pesquisa. A USP é a instituição brasileira mais "bem colocada": 119ª posição. Ela foi uma das que tiveram queda no ranking. A segunda mais "bem colocada" é a UFRJ: 346º lugar. A queda generalizada, que atingiu 87% das instituições brasileiras, é atribuída principalmente à queda no desempenho em pesquisa e à crescente competição global com instituições mais bem financiadas. A íntegra da reportagem pode ser obtida AQUI.

Agora eu pergunto: houve, de fato a tão sonhada universalização do acesso ao ensino superior no Brasil??? E se ocorreu, qual foi o preço pago??? O preço de vidas ceifadas? O preço de tratamentos médicos mal sucedidos e que deixaram sequelas para sempre nos pacientes? O preço de estruturas de concreto que podem ruir a qualquer momento? Qual o preço que, de fato, foi pago? Você já parou para pensar sobre isso? Não? Pois eu te recomendo a refletir urgentemente sobre tais questões. Sem exagero: a próxima vítima poderá ser VOCÊ.

 O resultado está aí, em letras garrafais, para quem quiser enxergar. 

Portanto, houve grave depreciação na qualidade do ensino superior no Brasil. Isso explica o grande número de reprovações manifestados no exames da Ordem e do Conselho Federal de Contabilidade. 

O que pode ser feito? Tenho algumas sugestões: 

1 - O sistema de cotas atualmente em vigor deve ser urgentemente revisto. Nesse sentido, o governo deverá assumir a sua própria responsabilidade nesse processo, criando mecanismos para que os postulantes aos bacharelados e licenciaturas possam se qualificar, a fim de alcançarem o nível de exigências das instituições de ensino no Brasil. 

2 - Incentivar as instituições de ensino a fortalecerem seus mecanismos de ingresso, promovendo a aprovação pelo mérito em detrimento de qualquer outro critério (cor, cultura etc.). 

3 - Instituir exigências das universidades e faculdades particulares para que possam receber recursos federais ou estaduais que financiem os estudos de quem deseja nelas estudar. Uma dessas exigências residiria na obrigatoriedade de tais instituições particulares apresentarem, em contrapartida, um número mínimo de publicações em revistas científicas classe A, B e C, que tenham indexações em bases como SCOPUS, Web of Science e outras. Tal exigência recairia sobre alunos postulantes ao auxílio do governo. A meu ver, é justa a contrapartida, pois, afinal, é dinheiro público que está sendo investido. 

4 - Conectar as universidades públicas ao setor privado, a fim de que elas possam gerar produtos e serviços demandados pela estrutura empresarial brasileira. Seria uma excelente troca: de um lado, as universidades contribuiriam para o desenvolvimento e crescimento nacional; de outro, as empresas remunerariam as atividades de pesquisas por meio de Royalties pagos a todos os que estivessem envolvidos nos projetos de pesquisa (alunos, professores, colaboradores) além, é claro das próprias instituições superiores de ensino. Isso ajudaria a reduzir a dependência das universidades públicas do orçamento governamental, além de ampliar o nível de remuneração dos professores que atuassem nessas instituições de ensino. 

5 - Rever urgentemente os critérios de avaliação do ENADE, pois até hoje, não disse a que veio. 

6 - O Conselho Federal de Contabilidade deverá também assumir suas próprias responsabilidades nesse processo de mudança e restabelecimento da qualidade do ensino contábil no Brasil. É muito bom permanecer no conforto dos escritórios e das reuniões eloquentes. Precisamos muito mais que isso. A sociedade brasileira, que depende direta ou indiretamente dos serviços contábeis, precisa ser respeitada em suas necessidades. Ninguém merece comprar um produto de má qualidade, principalmente quando se paga caro - via impostos e contribuições - para obtê-lo. Portanto, o CFC tem um grande papel a desempenhar. Pode ser indutor do desenvolvimento do aprendizado contábil no Brasil. Para tanto, deverá se orientar pelas melhores instituições do mundo. Em outras palavras: deve se nivelar "por cima" e fugir à tentação do conformismo com o atual modelo. Do contrário, os cursos de Contabilidade continuarão fazendo de conta que ensinam e os alunos, fazendo de conta que aprendem.   

7 - Revisão profunda e imediata dos critérios para a aprovação nos níveis médio e fundamental. O sistema deve ser capaz de filtrar, com precisão cirúrgica, quem tem e quem não tem condições de alcançar níveis mais elevados. O sistema deve oferecer saídas para os que apresentem tais dificuldades. Ele deve: nivelar seus conhecimentos, retirar suas dúvidas, fechar suas lacunas para, ao final, dar condições a eles de subirem em sua graduação. Só assim terão condições de evoluírem no aprendizado. Dou uma dica: APRENDAM COM QUEM JÁ SABE FAZER UMA EDUCAÇÃO DE QUALIDADE. Converse com outros países. Converse com especialistas de sucesso. Traga pra cá o que realmente deu certo em outros sistemas educacionais no mundo. Às vezes, não precisamos começar do zero.     

Em síntese, se não agirmos imediatamente,  nosso paciente passará da condição de estado crítico para a condição de estado terminal. Isso se não vir a óbito nos próximos anos. Sabe o que penso? Anota aí: o ensino superior no Brasil já está com o pé no cemitério. Portanto, temos mais a lamentar que comemorar.

É como penso.


Alipio Reis Firmo Filho

Conselheiro Substituto - TCE/AM




sábado, 18 de abril de 2026

A CAIXA

Embora não percebamos, todos nós, que viemos a este mundo, recebemos uma caixa. Ela foi um presente que nos foi dado, embora costumeiramente sempre a ignoramos e, muitos vezes, vivemos como se ela não existisse.  

Essa caixa possui as mesmas dimensões, independentemente se somos humildes ou afortunados, crentes ou descrentes, intelectuais ou iletrados. Suas dimensões são exatamente as mesmas para todos os mortais. Ela não faz distinção de ninguém. Sempre oferece a mesma capacidade a cada um de nós. Aliás, desde que o homem se conhece por homem sempre ela foi a mesma, nem mais, nem menos.  

Desde nossa tenra infância convivemos com ela, estejamos dormindo ou acordados, trabalhando ou estudando, em momentos de lazer ou simplesmente refletindo sobre a vida. Essa caixa conhece nossa intimidade como ninguém. Talvez até mais do que nós mesmos. Ela guarda nossos segredos mais profundos. Dialoga com nossos sonhos, nossos anseios e nosso propósito de vida. 

Embora muito próxima de nós, ela não interfere em nossa rotina. Não nos critica quando erramos, não nos aplaude quando acertamos, simplesmente é indiferente ao nosso dia a dia. Sua indiferença, entretanto, não significa que ela não se importa conosco. Muito pelo contrário. Ela continua sempre à nossa disposição, tentando nos auxiliar no que for útil. Afinal, como um anjo da guarda, ela nos foi dada para estar conosco até o último instante de nossa vida. Nunca nos abandona, mesmo nos momentos mais difíceis. Qualquer que seja o tamanho da nossa dificuldade,  ela estará sempre ali para nos ajudar e sempre nos oferecer uma segunda oportunidade. Ela sempre nos observa, qualquer que seja o lugar ou a ocasião. 

Desde quando chegamos a este mundo começamos a colocar coisas dentro dessa caixa. Coisas grandes ou pequenas. Importantes ou banais. Coisas de muito valor ou sem valor algum. Aliás, foi justamente para isso que ela nos foi dada.  

Há 40 ou 50 anos atrás essa caixa conseguia guardar quase tudo que nela colocávamos. Ela atendia plenamente às nossas necessidades. Sempre ficávamos satisfeitos com ela. Entretanto, com o transcurso de nossa existência, começamos a achar que ela se tornou menor. É como se ela tivesse encolhido, pois já não conseguíamos mais colocar tantas coisas dentro dela. Por mais que tentássemos, ela já não mais respondia aos nossos anseios e expectativas como antes.    

Começamos a criticá-la. Gostaríamos que ela tivesse uma dimensão maior, pois, somente assim, ela abarcaria tudo o que precisássemos nela armazenar. Porém, o problema não está na dimensão da caixa. O problema está em nós mesmos. A caixa continua sendo do mesmo tamanho que era antes. Nem mais, nem menos. Ela continua ali, sempre à nossa disposição como sempre. Discreta. Quase que imperceptível. Sem alarde e sem holofotes. Ela continua seguindo o nosso ritmo, do jeito e da forma que sempre desejamos.  

Essa caixa tem um nome. Se chama TEMPO.

Desde que me entendo por gente o dia sempre teve 24 horas. O mês, 30/31 dias. O ano, 365/366 dias. Nunca diferente disso. Você que me lê agora também deve ter a mesma experiência que eu. 

Com o frenesi da vida moderna, a agenda cada vez mais apertada, os inúmeros compromissos e os afazeres cada vez mais exigentes se tornou cada vez mais comum dizermos: "Gostaria que o dia tivesse 25, 26, talvez 30 horas a mais". Já não é possível conviver com um tempo tão escasso. Tão diminuto. 

Meu amigo, minha amiga, não é bem por aí. 

Nada precisa ser mudado. Tudo está como sempre esteve. Nós é que mudamos.

O tempo continua a ser o mesmo para todos nós. O que mudou foi o número de nossos compromissos. 

Temos o número de horas suficientes. O mesmo número de horas que a humanidade teve desde que o homem se entende por gente. Quanto a isso, não há do que reclamar. 

Porém, a vida "moderna" nos trouxe um cem número de preocupações. A cada dia, começamos a colocar mais compromissos dentro de nossa caixa, ou melhor, de nosso tempo. Sem nos darmos conta, 24 horas deixou de ser suficiente para guardarmos tantas coisas. Foi quando nasceu o desejo de um dia mais elástico. Maior e com mais horas...

Desejo infeliz.

Nunca conseguiremos aumentar o tamanho de nossa caixa, é dizer, do nosso tempo.

Não é o tempo que deve ser mudado. Somos nós que precisamos aprender a dizer NÃO para todos os afazeres, principalmente aqueles que nos afastam da convivência de quem amamos, do que gostarmos e de tudo aquilo que nos faz bem e feliz. Só assim nossa caixa, isto é, nosso tempo, será capaz de armazenar tudo o que for IMPORTANTE armazenar. 

O desejo de um tempo maior se assemelha àquele indivíduo que gostaria de ganhar cada vez mais para comportar sua infinita sede de consumo. Nunca irá conseguir. 

Assim como os ganhos são o limite de nosso consumo, o tempo nos impede de realizar infinitas atividades. Se não fosse ele - o tempo - nossa sede infinita de realizações nos aniquilaria, tornando-nos esgotados e incapaz de prosseguir na própria existência. 

Portanto, não lute contra sua caixa, isto é, contra seu tempo. O tempo é sábio. Nós é que somos difíceis. 

Em nossa trajetória de vida, devemos escolher criteriosamente o que iremos colocar em nossa caixa. Só assim, saberemos conviver em paz com ela.

Lembre-se: O TEMPO É O SENHOR DE MUITOS APRENDIZADOS E O REMÉDIO PARA MUITAS FERIDAS.

Pense nisso. Reflita sobre isso.


Alipio Reis Firmo Filho

Conselheiro Substituto - TCE/AM


 


   

sexta-feira, 3 de abril de 2026

QUAL O SIGNIFICADO DA PROCISSÃO DA VIA SACRA?

Às sextas-feiras santa a Igreja Católica convida os fiéis a participarem da procissão da Via Sacra. A procissão é realizada no Brasil e em todo o mundo e tem por finalidade reviver o caminho de Jesus Cristo até a Cruz. Para tanto, 14 estações são percorridas sendo a última dedicada à reflexão sobre o sepultamento de Cristo.

Por ser uma participação na caminhada de Cristo rumo ao Calvário, é importante que o cristão católico esteja completamente integrado à experiência salvífica de Jesus. 

Sua atenção deve ser plenamente tomada pelo significado e grandeza do percurso, para que sua mente não "vagueie". É muito importante refletir profundamente sobre os sofrimentos de Jesus Cristo nessa caminhada. As dores que sentiu, a angústia infinita que experimentou, o profundo desejo de salvação da humanidade, sua humilhação e esvaziamento completo e sem reservas. 

Na caminhada, devemos ser um "outro Simão Cirineu" e, por algumas horas, tentarmos carregar um pouquinho da Cruz no lugar de Jesus. Nessa experiência, a reserva é fundamental. Devemos entrar no nosso quarto e fecharmos as nossas portas. As portas de nossos sentidos. Não devemos deixar nossos sentimentos nos retirar dessa sublime experiência. Por isso, feche a porta de seus problemas pessoais, feche a porta de suas redes sociais, feche as portas de suas preocupações e anseios, feche as portas de sua sede ou fome, feche as portas de seu cansaço físico e de seu desconforto, enfim, feche as portas de tudo aquilo que pode te distrair e te abstrair desse sublime momento. Mergulho profundamente na experiência salvífica de Cristo. Só assim você poderá experimentar ser um "outro Cristo" nesse precioso e único instante da cristandade. 

Evite conversas paralelas. Evite fotografias. Evite se conectar com o mundo ao seu redor. Conecte-se apenas com o Salvador. Como se você estivesse sozinho(a) na procissão. Sem mais ninguém ao seu redor. 

Ore, cante, louve e agradeça. Essa é uma ótima oportunidade de você oferecer o seu nada. O seu vazio. Os seus defeitos. As suas maldades. Os seus mal sentimentos. 

Lembre-se: se você decidiu participar da procissão da Via Sacra você decidiu olhar unicamente para Cristo. Para mais ninguém. Esse olhar não deve ser apenas físico. Olhe principalmente com os seus olhos espirituais. Agradeça a Ele o infinito amor por você e pela humanidade. Agradeça a Ele pela entrega absoluta e pela imensa misericórdia e desejo de salvação. 

Pense em você como se fosse um outro Cristo. Esse é o verdadeiro significado da Via Sacra. 

Se possível, faça algum jejum antes, durante ou após a caminhada. Ofereça também o seu pequeno sacrifício por você, por sua família, pelos doentes e por toda a humanidade. Peça a Jesus que aproveite sua pequena dor para transformá-la em gotas de salvação. 

Após a caminhada, você se sentirá mais cristão. Mais fortalecido(a) espiritualmente. Mais preparado(a) para retomar sua própria caminhada. Seu próprio calvário neste vale de lágrimas. 

Portanto, ao decidir participar da Via Sacra participe não apenas com o corpo, mas também com sua alma, sua mente e seu espírito. Não esteja pela metade na via dolorosa. Esteja integralmente. Sem reservas. Entregue-se a ela assim como Cristo se entregou à morte de Cruz.

Somente assim seremos genuinamente um "outro Cristo". 


Feliz Páscoa a todos!!


Prof. Alipio Reis Firmo Filho 

 

 

domingo, 29 de março de 2026

O DESEMPENHO DO GOVERNO FEDERAL SOB A ÓTICA DO RESULTADO PRIMÁRIO: 2024

Há meses atrás escrevi sobre o desempenho do Governo Lula em seu primeiro ano de Governo (2023). Naquela oportunidade, destaquei o gigantesco déficit primário ocorrido naquele ano: 230,5 bilhões de reais. Destaquei também que o resultado primário do ano anterior (2022) havia fechado com um superávit de 46,4 bilhões de reais.  Para acessar meu artigo clique AQUI.

Retomo agora a análise do desempenho do governo federal, agora ao longo de 2024. 

2024 fechou com novo déficit primário, desta vez de 45 bilhões de reais. As receitas primárias somaram, aproximadamente, 155,1 bilhões contra 200,1 bilhões de despesas primárias. Esse resultado, somado ao resultado de 2023 eleva o déficit primário do governo nos dois anos para 275,5 bilhões de reais. 

Mês a mês os resultados apresentados em 2024 foram os seguintes: Jan (superávit de 79,3 bilhões), Fev (déficit de 58,4 bilhões), Mar (déficit de 1,5 bilhões), Abr (superávit de 11,1 bilhões), Mai (déficit de 61 bilhões), Jun (déficit de 38,8 bilhões), Jul (déficit de 9,3 bilhões), Ago (déficit de 22,4 bilhões), Set (déficit de 5,3 bilhões), Out (superávit de 40,8 bilhões), Nov (déficit de 4,5 bilhões) e Dez (superávit de 24 bilhões). 

Apenas quatro meses do ano apresentaram resultados positivos: janeiro, março, outubro e novembro. Os demais apresentaram resultados negativos. 

Todos os dados foram colhidos do site Tesouro Transparente (TESOURO TRANSPARENTE). São, portanto, dados oficiais do Tesouro Nacional. 

No cálculo de cada mês são considerados os resultados de três instituições/naturezas: do Tesouro Nacional, do Banco Central do Brasil e da Previdência Social (Regime Geral da Previdência Social). 

Segundo o novo arcabouço fiscal, aprovado em agosto de 2023 para vigorar em 2024, o resultado do Governo alcançou um déficit de 11 bilhões. Isto porque, pelo novo cálculo, o governo excluiu várias despesas antes computáveis no resultado primário, além de alterar igualmente o regime de cálculo da receita primária federal. Uma das despesas excluídas foram os créditos extraordinários. A solução criativa do governo também repercute positivamente na relação resultado/PIB, já que a medida "puxa" essa relação para baixo. Segundo cálculos do governo, em 2024 o Resultado Primário correspondeu a 1,19% do Produto Interno Bruto. Pelo antigo cálculo esse resultado alcançaria um percentual maior.  

Pelo sim, pelo não, o desempenho fiscal do atual governo segue amargando sucessivos déficits primários decorrentes principalmente de um consumo alto combinado com a falta de políticas voltadas ao corte de gastos públicos. Conquanto aconselhado por aliados, o governo se recusa a cortar gastos, muito provavelmente motivado pelas consequências políticas que poderão representar aumento no grau de insatisfação do eleitorado nacional. A solução adotada para conter o gigantesco déficit primário é criar receitas gerando grande insatisfação popular por meio da retirada compulsória de dinheiro da economia, e reduzindo potenciais investimentos da iniciativa privada.


Alipio Reis Firmo Filho

Conselheiro Substituto - TCE/AM


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

ANJOS E DEMÔNIOS

Fomos apresentados a este mundo sem ao menos sermos consultados se queríamos realmente conhecê-lo. Quando tomamos consciência, já estávamos imersos na realidade que nos cerca. Enfim, chegamos. Olhamos ao nosso redor e paulatinamente aprendemos a nos conectar com o mundo e com nossos semelhantes. Familiares, colegas de sala de aula, amigos de infância, companheiros de profissão. 

Algumas dessas pessoas só passam alguns instantes em nossa presença. Outras, permanecem algum tempo. Depois nos deixam como se nunca as tivéssemos conhecido. A vida é muito engraçada. Nos une e nos separa ao mesmo tempo. Nos faz sorrir e chorar compulsivamente. 

Entre os inúmeros personagens que cruzam nosso caminho, alguns já identificamos de cara: anjos em pele de cordeiro. Esses seres angélicos são pessoas amáveis, com sorriso largo no rosto, dispostas a nos ajudar e colaborar para que sejamos sempre felizes. Pessoas que vibram com nossas conquistas e com nosso crescimento pessoal e profissional.  

Esses seres não somente aparentam ser o que são. Eles são o que são. Transparentes, verdadeiros, objetivos e sem rodeios. Para expressar o que realmente sentem por nós, não fazem uso apenas das palavras ou do sorriso, mas recorrem quase sempre às suas atitudes. Muitas vezes, eles não precisam dizer uma única palavra. O que fazem (ou o que deixam de fazer) sempre contribui para a nossa felicidade. Não importam que estejam longe ou próximos de nós. 

Há, porém, uma outra categoria de indivíduos que algumas vezes vivem nos tirando do sério. Testam nossa paciência. Muitas vezes até com certa aspereza. Tais pessoas são duras e aparentemente insensíveis. Nos cobram. Nos pressionam. Fazem exigências que nos deixam perplexos. Em muitas ocasiões até nos levam às lágrimas e nos mergulham num mar de tristeza e solidão. Em relação a eles, é difícil enxergar alguma centelha de luz. São pessoas escuras. Sem sentimentos. Frias e insensíveis. No entanto, são também nossos amigos. Verdadeiros anjos em pele de demônios. 

O curioso desses indivíduos é que precisamos de uma boa caminhada nesta vida para reconhecê-los. Às vezes, cruzamos a linha de nossa existência sem ao menos identificá-los. Não importa. As sementes plantadas por eles germinaram e, o que é melhor, renderam muitos frutos. Isso é o que importa. As palavras amargas e as experiências duras foram apenas instrumentos usados por eles para nos fazer crescer e frutificar. Uns 30 por um. Outros 60 por um. Alguns 100 por um. 

Tais indivíduos talvez sejam os que mais colaboram para o nosso crescimento. Nos amam tanto que não medem palavras para nos dizer a verdade. Para nos indicar o caminho. Para nos apresentar às saídas. Sim. Verdadeiros anjos em pele de demônios. Sua beleza não é logo identificada por nós. Às vezes, só muitos anos depois é que nos damos conta do quanto eles nos ajudaram na caminhada de nossa existência. 

Mas a vida não são apenas flores. Há muitos espinhos também.

Há indivíduos que nos dão tapinhas nas costas. Nos tratam com gentileza e até com uma educação impecável. À primeira vista parece que até já os conhecíamos há mais tempo. Palavras doces regam um diálogo marcado por uma sinceridade gostosa de ser degustada, mas rasa quanto à  profundidade. 

Em nossa presença manifestam uma atitude. Quando distantes de nós, mostram realmente o que são. Com seus dardos inflamados prontos para nos devorar. No fundo, não gostam de nós. Não desejam o nosso sucesso. Incomodam-se com nosso brilho. Sentem náuseas sempre que conquistamos uma vitória. Verdadeiros demônios em pele de cordeiro. 

Quanto a estes, às vezes também passamos uma vida inteira para nos darmos conta do que verdadeiramente são. Convivemos diariamente com eles, às vezes, por anos a fio e nem notamos nada. Absolutamente nada. A mentira, porém, tem pernas curtas. Muito curtas, por sinal. Não adianta se esconder. O rabo sempre fica do lado de fora. A verdade sempre vem à tona. O problema é que até lá já sofremos. Já tivemos experiências amargas e dolorosas que deixaram em nós cicatrizes que vão nos acompanhar durante toda a nossa existência. Só depois. Muito tempo depois é que nos deparamos com uma realidade dura, que nos causa assombro e desapontamento. Esses demônios são seres ardilosos. Prontos para nos devorar e nos fazer infelizes. Destes, devemos nos afastar, pois, do contrário, seremos convidados a beber de seu próprio veneno. 

Por fim, há, ainda, uma quarta categoria de indivíduos. Assim como os primeiros, já mostram logo o que são. Ásperas, arrogantes, estúpidas e ignorantes. Pessoas que convivem perfeitamente com o mal. Indivíduos que não escondem o que são: demônios em pele de demônios. De uma certa forma, são verdadeiros em suas atitudes. Não se preocupam em manifestar o que realmente são ou pretendem ser. Não vivem sob as aparências. Caminham na escuridão. Desejam apenas o mal. Por isso, não são difíceis de serem reconhecidos. 

Destes devemos também nos afastar. Quanto mais longe melhor. A distância é o melhor remédio. 

Em relação a tais indivíduos a própria natureza se encarrega de apartá-los. Da mesma forma que o joio é naturalmente separado do trigo. As trevas não resistem à luz. A luz os incomoda muito. Não suportam a claridade. Pessoas de bem são sempre indivíduos indigestos. Por isso, são como os polos opostos de um ímã: repelem-se mutualmente. Não há como admitir uma convivência pacífica e duradoura. 

Esses quatro grupos de indivíduos estão presentes em nossa vida. Temos de ter a sensibilidade necessária para identificá-los. A cada momento. A cada experiência com nossos semelhantes. Às vezes, pode ser uma equação difícil de elaborar. Em meio às demandas da existência, muitas vezes perdemos a capacidade do uso da razão e do bom senso. Muitas vezes, somos movidos pelo coração, tornando-nos presas fáceis das trevas. 

Nesse reduto, a lição bíblica funciona como um grande farol em nossa vida: orai e vigiai! Sempre!


Prof. Alipio Reis Firmo Filho 

 


    

sábado, 8 de novembro de 2025

A COP 30

 A COP 30 está aí. Começou. Como tantos outros encontros ambientais do passado, promovidos pelas Nações Unidas, ela se tornou a menina dos olhos do mundo. Holofotes dos quatro cantos do Planeta se dirigiram para Belém no Pará, onde o evento é realizado.

A esperança é que os líderes mundiais promovam ações para salvar um mundo em meio a tantas catástrofes ambientais que nos assolam a cada dia.

Mas...será que eles realmente estão preocupados com o clima no Planeta?

O que vejo é o mesmo perfil das COPs anteriores.

Uma COP que mais parece um encontro de celebridades do que de pessoas preocupadas com o meio ambiente no mundo.

Uma COP que ostenta o luxo em meio a tanto lixo espalhado pelo Planeta.

Uma COP regada a vinhos e bebidas caras. Cardápios variados, assinados por chefes renomados e famosos. Pessoas de grife, perfumadas, usando ternos caríssimos, muito bem desenhados e alinhados, do jeito que manda o figurino.

Bolsas e sapatos distantes da realidade climática do Planeta. Alguns deles feitos com a colaboração dos próprios animais silvestres, justamente aqueles que a pauta pretende preservar e prolongar a vida ou a completa extinção. Falando assim, parece até contradição.

Uma COP movida a festas e apresentações. Fotos e mais fotos. Com cantores e bandas famosas e bem orquestradas, que concorrem com os sons quase emudecidos de muitos pássaros da floresta.

Uma COP de sorrisos largos e trocas de gentilezas, presentes e memórias.

Uma COP de abraços, apertos de mão e discursos eloquentes (alguns deles nem tanto assim).

Uma COP de promessas vagas e muitos discursos de ocasião. Textos impecáveis. Muito bem estruturados dizendo o que todo o mundo gostaria de ouvir, mas deixando o essencial de lado: o que realmente viemos fazer aqui???

Uma COP muito parecida com os bailes, festas e jantares oferecidas por muitos líderes mundiais em seus próprios países, apenas para jogar conversa fora. Como se fosse um grande encontro de amigos que acontece de tempos em tempos. Longe, muito longe, da miséria de seus compatriotas. Distante dos anseios por um meio ambiente melhor e mais equilibrado.   

Uma COP sem limites de gastos e vaidades. Sem foco. Sem pauta. Sem dizer ao certo a que veio.

Uma COP que mais parece um encontro de celebridades de Hollywood.

Uma COP que vai ficar na nossa memória sim. Não pelo que fez, mas, principalmente pelo que deixou de fazer. Aliás, como todas as COPs anteriores. O tempo passa, mas nada muda.

No Pacífico norte, há um “continente” de lixo e plástico há muitos anos cuja dimensão alcança 1,6 milhões de Km2, maior que toda a área do Estado do Amazonas. Até hoje, não vi nenhum líder governamental escrever uma vírgula sequer  a respeito, no sentido de convidar outros governantes a solucionar o problema.

Talvez seja por isso que Bill Gates e muitas outras autoridades decidiram abandoná-la ou não ligaram para ela. Não porque não se preocupam com o Planeta. Apenas porque não querem fazer parte de um grande discurso: o da hipocrisia.

Será que eles realmente estão preocupados com o clima no Planeta???

 

Alipio Reis Firmo Filho

Conselheiro Substituto – TCE/AM   

 

 

   

 

 

   

 

quinta-feira, 24 de julho de 2025

BRASIL X EUA: O TARIFAÇO DE DONALD TRUMP

 

Desde quando Donald Trump anunciou o tarifaço de 50% sobre os produtos brasileiros que ingressassem nos EUA a partir de 1º de agosto próximo, o relógio do tempo corre contra a economia brasileira. Se o governo brasileiro não dialogar com o presidente americano, a situação vai azedar para o empresariado brasileiro e, por extensão, para todos nós que aqui vivemos. 

De fato. Há um superávit comercial pró EUA nas relações comerciais entre nós e eles. Compramos mais do que eles compram de nós. Dito dessa forma parece que o Brasil está “dando uma mãozinha” para os americanos. No entanto, não é bem por aí.

Os produtos americanos vendidos ao Brasil são mais caros porque se tratam de produtos industriais. Tais produtos são os que agregam mais valor numa economia. Um exemplo clássico disso é o Japão, cuja pauta de suas exportações é constituída quase que totalmente por produtos industriais. Daí as vultosas quantias ganhas com suas exportações.

No caso do comércio bilateral Brasil/EUA, os produtos comprados pelo Brasil são representados por motores, medicamentos, máquinas e equipamentos. Por isso seus preços são elevados. Já os produtos brasileiros comprados pelos EUA são representados essencialmente por produtos primários, como suco de laranja, café e óleos vegetais. Ora, produtos primários – as chamadas commodities – são os que agregam menos valor numa economia, pois servem apenas de matérias-primas básicas no processo de fabricação. São, portanto, mais baratos que os produtos industriais. Por isso seus preços são baixos quando comparados aos produtos americanos. Uma consequência natural desse contexto é que mais dependemos da economia americana do que ela de nós. O motivo é simples.

Produtos primários são mais facilmente encontrados em outras economias do que produtos industriais. Ou seja, é muito mais fácil para os EUA encontrarem óleos vegetais e suco de laranja no mundo, a preços competitivos com os do Brasil, do que nós encontrarmos motores em outros países para atender às nossas necessidades. Por outro lado, nossa dificuldade na busca de mercados alternativos para satisfazermos nossa demanda interna esbarra em questões de natureza técnica.

Produtos industriais são produzidos em série. Em razão disso, possuem especificidades que podem não ser encontradas em nenhum outro país do mundo. É como se o produto fosse fabricado “sob medida”, como que para atender a características que só a economia brasileira possui. Isso reduz bastante as chances de mercados produtores alternativos no mundo, o que eleva consideravelmente a dependência da economia brasileira da economia americana.

Ou seja, melhor deixar o mi mi mi de lado e dialogar como gente grande. As consequências poderão ser bastante danosas se não chegarmos a um número tarifário que seja bom para nós e para os EUA.

Nada obstante todo esse imbróglio, ao que tudo indica, o presidente Lula sinaliza que não quer sentar à mesa das negociações com o presidente americano. Depois de  proferir uma enxurrada de adjetivos contra Donald Trump – isso não é de hoje, diga-se de passagem – ele prefere enviar seus auxiliares – Alckmin, Haddad, Embaixada do Brasil nos EUA -  para dialogarem com o tesouro americano. A meu ver, há dois erros graves nessas iniciativas.

Primeiro, o diálogo não é com o tesouro americano. O papo deve ser com a Casa Branca. Segundo, a conversa tem de ser de presidente para presidente como, aliás, fizeram a Índia, o Canadá, o México, a Argentina, o Japão e tantos outros. A pergunta que não quer calar: será que Lula se coloca em posição superior aos mandatários desses países, mesmo dependendo fortemente da economia americana?  Era ele que deveria conversar pessoalmente com o Trump e não seus auxiliares. Chega a ser grosseira e deselegante a conduta do governante brasileiro em sede da diplomacia internacional. Historicamente, as relações exteriores brasileiras foram sempre reconhecidas como uma das melhores do mundo. Seguramente, um de seus maiores expoentes foi Paulo Tarso Flecha de Lima, reconhecido mundialmente por sua habilidade e talento no trato diplomático nas últimas cinco décadas. A postura do presidente Lula se afasta completamente da costumeira postura do governo brasileiro perante a comunidade internacional.

Não bastasse os pesados adjetivos dirigidos pelo presidente Lula ao presidente Trump, o governante brasileiro não esconde sua simpatia por governos reconhecidamente ditatoriais. Um dos encontros mais emblemáticos, talvez tenha sido a participação do presidente brasileiro no desfile militar russo no dia 9 de maio, em que o governo Putin comemorou a vitória sobre o Nazismo. Ao lado de Lula estavam figuras  nada republicanas, como Nicolás Maduro (Venezuela) e Xi Jinping (China). Outro fato que chamou a atenção da Casa Branca foi a autorização dada por Lula ao Iran, ao permitir que dois navios de guerra iranianos atracassem no Rio de Janeiro.  

Essas são apenas algumas trapalhadas do presidente brasileiro. Mais do que atitudes estratégicas erradas, elas podem representar a asfixia da economia brasileira e, por extensão, de toda população brasileira, inclusive de todos aqueles que simpatizam com o governo Lula.

Questiono: será mesmo que o atual presidente brasileiro está preocupado com o povo de seu país?????

 

Alipio Reis Firmo Filho

Conselheiros Substituto – TCE/AM

terça-feira, 6 de maio de 2025

O NOVO SUCESSOR DE PEDRO

 

"Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja" (Mateus 16:18).  Com essa frase nós, cristãos católicos, cremos que Cristo constituiu Pedro para conduzir sua Igreja logo após sua ascensão aos céus. Após a Ressurreição, outro gesto de Cristo distinguiu Pedro entre os demais apóstolos: “E, depois de terem jantado, disse Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de Jonas, amas-me mais do que estes? E ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta os meus cordeiros” (João, 21:15).

O termo “apascentar”, usado por Cristo Ressuscitado significa “cuidar”, “instruir”, “nutrir” ou “guiar”. Desde então, esse é o papel dos papas à frente da Igreja, cujo número – incluindo o Papa Francisco – alcançou 266 escolhidos para governar a Igreja até hoje.

Sempre a eleição de um Papa chamou a atenção da humanidade. Na atualidade, repórteres, cinegrafistas, TVs, rádios e revistas dedicam parte de suas reportagens ao Vaticano que, muito embora seja o menor país do mundo, conduz a fé de 1,4 bilhões de católicos romanos espalhados pelo planeta.

Na atualidade, uma das questões mais discutidas é quanto ao perfil do novo papa: se será conservador, liberal, progressista ou reformista.

Por ser conduzida por homens e estar inserida na humanidade, a Igreja não tem como fugir a tais especulações. A Igreja, contemplada pela ótica humana, também está sujeita a considerações dessa natureza.

Lembremos, todavia, que, como ensina os evangelhos, o Novo Testamento e o  Catecismo católico, a Igreja, assim como Cristo – seu instituidor – possui duas naturezas: a humana e a divina. A humana, representada pelos fiéis e seus sacerdotes; e a divina, alicerçada na assistência direta e pessoal do Espírito Santo, o Consolador, enviado por Cristo logo após sua subida aos céus. Seu papel na Igreja foi sinalizado pelo próprio Cristo: "quando vier o Paráclito, ele vos ensinará tudo" (João 14:26).

É preciso, portanto, que nós, católicos, seguidores do Ressuscitado, tenhamos a lucidez necessária de não nos deixarmos influenciar pelo que o mundo diz, ensina, orienta ou sinaliza. Conforme ponderou o próprio Jesus, “estamos no mundo, mas não somos do mundo” (João 17:14). Paulo, em sua Carta aos Romanos pede para que não nos conformássemos com este mundo (Romanos 12:2).  Em outra passagem, na Carta aos Coríntios, o mesmo apóstolo afirma que “Deus escolheu o que para o mundo é loucura para envergonhar os sábios e escolheu o que para o mundo é fraqueza para envergonhar o que é forte” (1º Coríntios 1:27).

Além dessas passagens existem inúmeras outras que também afirmam categoricamente a separação entre Deus e o mundo. Na verdade, são duas dimensões completamente opostas, incapazes de se misturarem, assim como a água não se mistura com o óleo. 

Desde a morte do Papa Francisco tenho ouvido muitos apelos no sentido de pedirem a “modernização da Igreja”. Que o novo sucessor de Pedro prossiga os avanços conquistados pelo Papa Francisco.

Não é bem por aí.

Quando ouço comentários dessa natureza, logo me vem à mente o que aconteceu a João Batista, decapitado pelo Rei Herodes por denunciar a situação de adultério vivida entre ele e Herodiade, sua mulher, porém, casada com o irmão do Rei. A decapitação de João Batista, a pedido de Herodiade reflete muitíssimo bem a postura que os verdadeiros cristãos têm que adotar em relação aos valores deste mundo: o de enfrentamento.

A História da Igreja é próspera em nos mostrar milhões de cristãos que ofereceram suas próprias vidas em troca da defesa da ordem e da moral cristã. Que não se curvaram aos poderes deste mundo e denunciarem suas mazelas. Que não se deixaram levar por ideologias dominantes em várias passagens da vida cristã. Que nunca trocaram os valores divinos pelos valores deste mundo.     

No meu ponto de vista, em sede da moral divina, não há que se falar em papas conservadores, liberais, progressistas ou reformistas. Isto porque tais conceitos são conceitos puramente humanos e como tais devem ser tratados e apartados da comunidade cristã católica. Tais definições cabem perfeitamente na comunidade e no convívio humano, mas nada tem a ver com a comunidade cristã, pois “há um só Senhor e uma única fé” (Efésios 4:5).

As leis de Deus são imutáveis. O sentido de suas normas é eterno, principalmente quando relacionado a questões de fé e moral cristã. Portanto, não há como aplicarmos conceitos puramente humanos - como “progressistas” e “reformistas” – ao transcurso da Igreja por este mundo. A Igreja está no mundo, mas com ele não se confunde.

Em Mateus 24:35 Cristo foi categórico ao afirmar que “os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão”. Trata-se, aqui, de uma das mais explícitas e cristalinas afirmações do Salvador quanto à eternidade de sua doutrina e ensinamento. Eles são ATEMPORAIS. Não cabem, portanto, nos redutos deste mundo. São por demais elevados, para se agasalharem sob o manto das vicissitudes humanas.

Quando vejo, p. exemplo, discursos inflamados dentro da Igreja defendendo com veemência a questão climática que assola o planeta, a fome no mundo, o desemprego e muitos outros problemas sociais, fico perplexo com tais discursos. Não por permanecer  insensível a eles, mas por perceber que muitos destes conteúdos seculares acabaram tomando o lugar daquilo que deveria permanecer como o centro de nossas atenções: a salvação eterna oferecida por Cristo.

Tais discursos de índole puramente secular têm e devem ter os seus próprios foros e redutos  de discussão. A COP 30, a ser realizada em Belém neste ano, é um desses redutos. Quanto a isso não há dúvida. No entanto, quando algumas coisas saem do seu devido lugar, escapando de sua ordem natural, é preciso que imediatamente elas devam ser ajustadas, reconduzindo-as ao seu curso original.  O espaço reservado a Cristo deve ser intocável. Não podemos tratar o acessório com os mesmos protocolos que dispensamos ao principal. 

Com efeito, é preciso que o novo sucessor de Pedro declare em alto e bom tom que a salvação da alma deve ser o principal objetivo perseguido por cada cristão e pela própria Igreja. Que Jesus está vivo na Eucaristia, em corpo, em alma e em divindade. Que os sacramentos - especialmente a confissão e a comunhão – carimbam nosso passaporte para a eternidade. Que a vida no adultério conduz à morte eterna. Que o inferno existe, assim como o purgatório e o paraíso. Que a água benta tem que fazer parte diária de nossas práticas cristãs católicas, pois, nossa luta não é contra a carne e nem contra o sangue, mas contra os principados e as potestades deste mundo tenebroso (Efésios 6:12). Que após a morte as almas enfrentam o Tribunal do próprio Deus e, mais importante, que, passados pouco mais de dois mil anos, nada disso mudou, assim como nada vai mudar na doutrina e nos ensinamentos da Igreja até a segunda vinda do Ressuscitado, conforme assinado, atestado e testemunhado por mensageiros celestiais: “Por que buscais entre os mortos aquele que está vivo?” (Lucas 24: 5-6); “De repente, surgiram diante deles dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: "Galileus, por que vocês estão olhando para o céu? Este mesmo Jesus, que dentre vocês foi elevado aos céus, voltará da mesma forma como o viram subir" (Atos dos Apóstolos 1: 10-11).

Esse é, a meu ver, o discurso que deve ser proclamado pelo novo sucessor de Pedro. Boa parte dele, aliás, já empoeirado e esquecido em algum cantinho de nosso interior.

 

Alipio Reis Firmo Filho

Conselheiro Substituto – TCE/AM  

 

 

  

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

UM BREVE BALANÇO SOBRE A ECONOMIA AMERICANA NO GOVERNO BIDEN

 

O governo Biden finalizou no mês passado seu quarto ano de mandato. Passou o  “bastão” para o novo presidente, Donald Trump após sofrer uma derrota memorável nas eleições presidenciais americanas para Trump.  A vitória de Trump foi avassaladora. Obteve a maioria das cadeiras no Senado, na Câmara dos Representantes  e ainda saiu vitorioso nas urnas americanas, onde obteve também a maior parte dos votos.

Trump também contará com o apoio da Suprema Corte americana. Seis dos nove integrantes são conservadores. Ao que tudo indica, o novo presidente  poderá governar o País sem muitos ruídos da oposição.

Economicamente falando, a administração Biden teve muitos sobressaltos. Talvez o maior deles esteja relacionado à inflação, principalmente pós pandemia. O certo é que já há algum tempo a economia americana não tem obtido o costumeiro desempenho, embora continue sendo considerada a economia mais forte do mundo.

Alguns dos indicadores econômicos revelam o governo Biden sob uma outra ótica, mais objetiva e sem as paixões político-partidárias. Por isso os números da economia de um país são tão importantes, pois são capazes de traduzir de forma mais fiel, realista e objetiva a capacidade de administração de seus governantes.    

Em termos de crescimento econômico a economia americana deu um “salto” logo no primeiro ano do governo Biden. Seu PIB passou de 21,32 trilhões de dólares registrados no ano anterior para 23,59 trilhões. Um crescimento da ordem de 5,8%. Nos anos que se seguiram evoluiu para 25,74 trilhões (2022), 27,36 trilhões (2023) e uma projeção de crescimento para 2024 de 29,16 trilhões.  De se ressaltar que Biden não experimentou os amargos sabores do ano pandêmico (2020), muito embora tenha sofrido seus reflexos, aliás, como todos os países do mundo.

A taxa de desemprego do governo Biden foi ligeiramente inferior à do governo Trump nos anos de 2022 (3,6% contra 3,8% de Trump em 2018) e 2023 (3,6% contra 3,7% de Trump em 2019). No entanto, no seu primeiro ano de mandato foi superior a de Trump. Biden registro 5,4% de taxa de desemprego enquanto Trump alcançou 4,4%. No último ano de seu mandato – 2024 – a taxa de desemprego registrada no governo Biden foi metade da registrada no último ano do governo Trump, respectivamente, de 4,1% e 8,1%. Ressalte-se, contudo, que o último ano de Trump correspondeu ao início da pandemia, representando a desaceleração brusca da economia em todo o mundo. Nos EUA não foi diferente.

No entanto, a inflação e a taxa de juros no governo Biden foram significativamente superiores aos do governo Trump. Aqui, talvez, resida a maior diferença entre os dois mandatários.

A inflação anual acumulada no governo Trump foi de 2,1% (2017);  2,4% (2018);  1,8% (2019) e 1,2% (2020). Lembrando que o ano de 2020 foi o pico da pandemia no mundo. Biden, ao contrário, experimentou amargos índices inflacionários   principalmente nos anos de 2021 (7%) e 2022 (8%). Em  2023 foi de 4,1% e 2024 de 2,9%. Ressalte-se que a inflação de 2021 foi a maior desde 1982 que, todavia, foi superada no ano seguinte pelo próprio governo Biden. Muito provavelmente este tenha sido um dos motivos para sua expressiva derrota em 2024. Também no último ano de mandato do governo Biden houve trajetória de crescimento da inflação americana. Trump terá de adotar medidas de contensão do índice inflacionário para evitar os sobressaltos experimentados no governo de seu antecessor.

Tendo em vista a disparada da inflação no último quadriênio americano, as taxas de juros adotaram a mesma trajetória. Para combater as taxas inflacionárias o Governo Biden teve que adotar taxas de juros elevadas o que encareceu o custo de vida dos americanos: 2021 (0,08%); 2022 (4,4%); 2023 (5,33%) - foi a taxa de juros mais alta desde a crise financeira de 2007 e 2008; e 2024 (2,9%).

Historicamente falando, o povo americano não está acostumado a conviver com preços elevados. Muito provavelmente, esse foi um dos principais fatores que concorreram para os desejos de mudança sinalizados nas últimas eleições americanas. Com efeito, a eleição de Donald Trump representa, economicamente falando, um desejo de retorno à era de ouro vivida pelos americanos, sabidamente traduzida por uma economia realmente forte e não sujeita aos solavancos de administrações sem compromisso com a riqueza e estabilidade socioeconômica.

Até aqui, os discursos de Trump têm ido nessa direção.

 

Alipio Reis Firmo Filho

Conselheiro Substituto – TCE/AM

 

sábado, 25 de janeiro de 2025

DONALD TRUMP

 

No último dia 20 de janeiro Donald Trump tomou posse pela segunda vez como presidente dos Estados Unidos. Depois de uma vitória esmagadora, Trump não precisou nem de 24 horas para sacudir o mundo.

Polêmico, incisivo e obstinado, em 24 horas Trump mostrou mais uma vez sua forte personalidade. Ácida para alguns. Necessária, urgente e oportuna para muitos.

Eu, particularmente, como já disse em minhas redes sociais, não comungo de todas as ideias dele. Confesso, porém, que boa parte delas vai na direção do que desejo para minha cidade, para meu País e para o mundo onde vivo.  

Uma das ações mais contestadas de Trump,  e que  ecoou mundo a fora (no Brasil não foi diferente),  diz respeito à política imigratória. Na verdade, o modo de ele ver os imigrantes ilegais não é segredo para ninguém. Todos sabem a opinião dele sobre  quem entra irregularmente nos EUA.

Devo admitir que concordo com ela, embora discorde da forma como algumas estão sendo implementadas. Acho que deveriam continuar sendo firmes, mas menos traumáticas.

Em primeiro lugar é preciso ser dito que nenhum país do mundo é obrigado a admitir em seu território imigrantes ilegais. Isso se chama Soberania. Ela consiste no direito de uma nação ou de um governo de se auto conduzir. Trata-se de uma regra elementar no Direito Internacional. Ou seja, qualquer país do mundo tem o direito de ditar  as próprias regras e tomar o rumo que bem entender. Nas políticas imigratórias não é diferente. Por mais dolorida que seja, ela é legítima sob o ponto de vista do Direito Internacional. Se houver excessos, caberá à justiça americana resolver. Não de ofício. Apenas por provocação.  

Evidentemente que na história da humanidade houve situações em que o exercício da Soberania por alguns países trouxe sérios desconfortos para a comunidade internacional (inclusive sendo estopim de guerras e retaliações)  fato que, a meu ver, não se aplica à política imigratória de Trump. Como Chefe de Governo e de Estado ele tem o direito e, sobretudo, a obrigação de priorizar os seus cidadãos. Aliás, como qualquer outro país do mundo. A regra é universal. Há situações, contudo, que por questões humanitárias muitos países abrem suas fronteiras para imigrantes ilegais. É o caso da Síria onde 13,5 milhões de pessoas deixaram o país por causa da guerra. Agora, por razões de prudência, decerto que nenhum país do mundo aceitaria, sozinho, acolher essas 13,5 milhões de pessoas, mesmo por razões humanitárias. É importante ter em conta que a entrada de imigrantes em massa em qualquer país do mundo pressiona os governos a garantirem condições de sobrevivência dessa massa populacional. É preciso criar postos de trabalho, pagar salários, mobilizar serviços de transporte, energia elétrica, alimentação, água e produtos de higiene pessoal. Isso sem falar nas condições de saneamento básico e de moradia. Ora, se um país não consegue oferecer tais serviços para os seus, abrir suas fronteiras indiscriminadamente aos demais é apenas transferir o problema de um lugar para outro. O desejo por melhores condições de vida mudará apenas de endereço. Na prática, continuará o mesmo.  Não é, portanto, uma equação fácil de fechar. “Quem não pode com o pote, não pega na rodilha" já dizia minha mãe. É o sábio provérbio popular que se aplica muito bem a situações como tais. Portanto, em se tratando de questões imigratórias, a sugestão mais do que prudente é “carregue o peso que possa suportar”. Trump deu um claro sinal que não conseguirá suportar o peso da responsabilidade pela entrada em massa de imigrantes. Seu compromisso primário, é bom que se diga mais uma vez, é com os seus. Não com terceiros.      

Muito tem se falado sobre a “crueldade” do governo Trump em deportar imigrantes ilegais, incluindo brasileiros. A meu ver, há muita cortina de fumaça na imprensa nacional e mundial.

Na verdade, muitos presidentes americanos deportaram imigrantes ilegais. Trump não é o primeiro e também não será o último. Por oferecerem melhores condições de vida, muitas pessoas ao redor do mundo sonham em morar nos EUA. O problema é que uma grande parte deles não reúne condições legais para lá entrar e permanecer.  Isso tudo sem falar que imigrantes ilegais são uma porta aberta ao tráfico de drogas. Convenhamos, em sã consciência, nenhum país do mundo deveria admitir situações como essas. Nos EUA não é diferente.

Sobre o número “em massa” de deportados, apesar de todo alvoroço causado por Trump em seu primeiro mandato, não foi ele o presidente que mais deportou imigrantes ilegais na história dos EUA. Até hoje, quem mais deportou foi  Barack Obama,  do partido Democrata, isto é, o mesmo de Biden.  Ao todo, foram 3 milhões de deportações. Trump deportou bem menos: 1 milhão. Quanto ao governo Biden, muito embora ainda não existam dados finalizados, sabe-se que de 2021 a fevereiro de 2024 seu governo deportou 1,5 milhões de imigrantes ilegais, ou seja, 500 mil a mais que Trump e metade das deportações realizadas por Obama. Isso sem computar o restante das deportações em 2024. 

Sobre as deportações de brasileiros, também é preciso que algumas verdades sejam reconduzidas ao seu devido lugar. O governo Biden deportou mais brasileiros que o de Obama e de Trump. Ao todo, foram 7.168 deportações contra 6.776 de Trump e 4.189 de Obama. A respeito disso, não vi nenhuma tempestade na grande imprensa nacional criticando o governo de Joe Biden. Nenhuma “gritaria”. Nenhum “estardalhaço”. Nenhum alarde. Muito pelo contrário. Parece que todo mundo comeu abil. Tais números mostram que o “mi-mi-mi” tem mais barulho do que realidade.

Outro aspecto a ser destacado é quanto a adoção da meritocracia como parâmetro para “tocar” os negócios americanos. A meu ver, outra decisão acertada de Trump. Desde jovem cultivo essa ideia. Aliás, toda a minha trajetória profissional foi pautada pela meritocracia, apesar de conviver com um orçamento familiar sempre apertado, principalmente  na minha infância e na minha adolescência. Nunca me deram nada. Sempre conquistei o que tenho com o próprio esforço.

Penso que, se você é bom, você deve provar que é bom. Se você diz ter condições de estar em primeiro, prove isso. Nada de “dar tapinhas nas costas” e inverter a ordem natural das coisas. Isso só gera uma comunidade de dependentes. Na meritocracia, as regras para realizar tarefas não são flexibilizadas para atender aos seus realizadores. É o contrário. São os postulantes que devem se capacitar para realizá-las. Em outras palavras, na meritocracia não são as regras que devem girar em torno do futuro colaborador, mas é este que deve reunir  condições para se adaptar a elas. Admitir o contrário é como encurtar a piscina olímpica para que este ou aquele nadador consiga chegar entre os três primeiros colocados. É aumentar a abertura do garrafão para que o jogador de basquete consiga colocar a bola dentro dele. É rebaixar a rede de vôlei para dar condições a alguns de conseguirem saltar e arremessar a bola à quadra do adversário. É alagar as traves do gol para que o batedor do pênalti tenha mais chance de realizar seu intento. Faz sentido isso para você? Para mim, não faz sentido algum.

É preciso que tenhamos em mente que em qualquer estrutura há elementos que não podem ser retirados, sob pena de toda a estrutura vir abaixo e deixar de fazer sentido. Num automóvel o chassi realiza essa função. No corpo humano, é a coluna vertebral que desempenha esse papel. Na Engenharia, a sustentabilidade é função das vigas e infraestruturas fincadas no subsolo. Na Química, os átomos são responsáveis por realizar esse papel. Na Astronomia, caberá à força gravitacional e à dimensão espaço-tempo realizá-lo. Na Economia, o sistema econômico representa o fator chave. No Direito a norma jurídica é seu elemento fundamental. Na Administração, são as organizações que emanam todos os conceitos e princípios da Ciência. Na linguagem escrita, o alfabeto incorpora essa característica.

Pois bem. Suprima cada um desses elementos em todas as estruturas observadas e veja o que acontece. Não é difícil imaginar.  A mecânica da vida não admite meios-termos.  

Pois é justamente contra essa regra elementar universal que muitos lutam quando jogam a meritocracia no lixo. A meritocracia é fundamental para a realização de qualquer tarefa. Desprezá-la equivale a colocar qualquer um para dirigir um automóvel. No mínimo, haverá dano. Muitos irreparáveis. Em se tratando da Administração Pública, admitir colaboradores sem avaliar suas reais capacidades de prestação do serviço é correr o risco de entregar serviços de péssima qualidade ao cidadão. Não há razoabilidade alguma. 

Outro ponto que considero positivo no governo Trump é a elevação da liberdade de expressão ao seu legítimo e único lugar. Veja, não estou eu aqui fazendo apologia ao crime ou ao abuso. Em absoluto. Só estou afirmando que a regra deve ser o direito de se expressar (como, aliás, o faço nestas linhas) e não a exceção. Pelo que tenho visto, paira sobre meu País uma nuvem de abuso de autoridade. A regra parece que é cassar a fala, a livre manifestação do pensamento mediante o uso do medo e da ameaça. Não. Numa democracia isto é inadmissível. A regra sempre tem que ser a livre expressão da vontade, conforme está capitulado na Carga Magna em mais de uma passagem. Agora, os abusos, os excessos, a ofensa à honra e à dignidade, estes sim, devem ser punidos sempre que se manifestarem. O que vejo, todavia, é que pessoas que nunca desonraram ninguém, nunca difamaram ninguém estão perdendo o desejo (e o direito) de falar, de manifestar seu pensamento, justamente por se sentirem ameaçadas. E o que é pior. Se sentem ameaçadas não por “A” ou por “B”, mas pela própria estrutura estatal cuja principal função é justamente protegê-las e dar-lhes a sensação de paz, segurança e liberdade. Veja que paradoxal!!!

Como também já disse em minhas redes sociais, a punição de quem ofende não pode trazer prejuízos ao restante da comunidade. A pena deve permanecer restrita à esfera do  ofensor. Nunca deve alcançar os demais componentes da comunidade. Não pode trazer turbulências ao convívio social. Essa regra simples e básica cristalizada, aliás, num direito fundamental de nossa Carta Magna,  tem o condão de impedir que a pena de um condenado alcance seus sucessores. Hoje em dia, o que vejo, é que os “sucessores”, isto é, os demais integrantes de um grupo social sofrem com o apenado os encargos da pena que lhe fora imposta, indistintamente. Como se a responsabilidade fosse solidária. Na verdade, parece haver um claro e indigesto recado para que os demais se calem, sob pena de virem a sofrer as mesmas consequências. Ou seja, instala-se o medo e a angústia em toda comunidade. A meu ver, tal prática é inadmissível em legítimos convívios democráticos.  

Por outro lado, quem pune tem sobre seus ombros uma grande responsabilidade. É como um cirurgião que deve retirar o tumor maligno em seu paciente (a sociedade) sem prejudicar nenhum outro órgão ou comprometer o funcionamento de veias ou artérias, sob pena de causar amputações indevidas. Infelizmente, há muitas amputações sendo perpetradas.  Vivemos tempos verdadeiramente sombrios.

Nos EUA, Trump deve reverter essa tendência. Infelizmente já cristalizada em alguns  países e em vias de cristalização em outros.     

Porém, como não tenho político de estimação, tenho também algumas críticas a fazer.

Não concordo com a política de Trump quanto às energias renováveis. O mundo agoniza e mais do que nunca precisa de nossa ajuda para continuar nos dando condições de vida. Por isso, quando Trump se move em direção ao petróleo e ao gás, contra o uso, p. exemplo, dos automóveis movidos a energia elétrica, vejo a situação como preocupante. Juntamente com a Índia e com a China, os EUA compõe o grupo de países que mais emitem gás carbônico no Planeta. Dada sua proeminência no mundo, uma iniciativa pró energias renováveis representaria um passo gigantesco em direção ao controle da crise climática mundial. Sua saída do acordo climático de Paris também não é nada bom para a humanidade. Todos nós perdemos.

Há, porém, uma particularidade que acho importante destacar.

Há anos grupos de países debatem as condições climáticas do Planeta. Existem acordos, cartas, recomendações, discursos e mais discursos pró meio ambiente. Tudo é muito maravilhoso durante o encontro. O problema vem depois. Em meio a tantos discursos e reuniões infindáveis parece que algo está errado. As condições do Planeta só pioram. Parece que os remédios adotados estão longe de surtir os efeitos desejados. Sou pragmático por natureza. Infindáveis rodadas de negociações às vezes não levam a lugar algum. Ao que tudo indica, estamos caminhando há muitos anos, mas não conseguimos sair do mesmo ponto. A temperatura da Terra está aumentando a cada dia, a cada semana, a cada mês, a cada ano. E parece que os líderes mundiais não conseguem frear esse processo. A sensação é que existem muita gente envolvida com a questão ambiental, mas pouquíssimos efetivamente comprometidos. O resultado desse estado de coisas está aí à nossa frente. Não sei se Trump, olhando por esse ângulo, preferiu ficar no seu quadrado. Diante de debates inférteis como estes, de que vale gastar saliva se os próprios países debatedores continuam na sua trajetória de morte?   

Outro ponto que, a meu ver, merece crítica é quanto a saída dos EUA da OMS. Também aqui, a iniciativa de Trump não foi positiva. Bem ou mal a OMS tenta fazer o seu papel. À época da pandemia, ela tentou, dentro de seus limites, colaborar com a humanidade. É como vejo. Infelizmente, muitos líderes políticos – Trump entre eles – politizaram o período pandêmico. Menosprezaram a força de um vírus letal e da própria Ciência.

Sua saída agora da Organização Mundial da Saúde representa uma grande perda. Quiça que haja uma reviravolta nesse sentido e os EUA voltem a compor a entidade no futuro próximo.

No geral, como disse no início desses meus comentários, acho muito positiva a atitude de Trump. Há excessos, evidentemente, mas confesso que tenho predileção por governantes que tenham atitudes. A atitude deve caminhar lado a lado com o discurso. "Faça o que eu digo, não faça o que eu faço" deve ser deixado para os ignorantes. Governantes que chamam para si a responsabilidade pela resolução de problemas crônicos de seus súditos devem ser aplaudidos e respeitados. Trump, nesse sentido, está dando um show a meu sentir. Podem criticá-lo pelo nacionalismo exacerbado. Podem criticá-lo por sua petulância, sua prepotência e suas palavras duras e incisivas. De minha parte, eu o aplaudo. É muito melhor alguém que faz o que promete do que aquele que promete e não faz.  Alguém que pensa grande. Que pensa realmente na coletividade. Em cuidar de seu povo e de sua gente. Alguém que coloca os valores de seu País acima de seus próprios valores pessoais. Alguém que ama e respeita o cargo que ocupa. Alguém que não permite que seu povo se sinta órfão e abandonado. É como vejo o governante americano.

Sabe, confesso que às vezes sinto uma ponta de inveja dos americanos.

 

Alipio Reis Firmo Filho

Conselheiro Substituto – TCE/AM