Dados relativos ao acesso e à universalização do ensino superior no Brasil tem sido divulgados pela grande mídia e pelo próprio governo federal como sinônimo de sucesso das políticas educacionais ao longo das duas ou três últimas décadas.
Enquanto educador, porém, prefiro receber tais resultados com reservas. Há mais de 30 anos exerço a atividade docente. Desses, 8 anos dedicados ao magistério superior em universidades públicas. Primeiramente, na Universidade Federal do Amazonas e atualmente na Universidade do Estado do Amazonas. Portanto, posso falar com segurança sobre minha experiência em sala de aula que, adianto, não tem sido das melhores. O perfil da grande maioria de quem chega ao Bacharelado em Contabilidade - sou professor de Ciências Contábeis - está muito aquém do nível desejado.
Em 1986, iniciei meu primeiro curso superior: o de Ciências Contábeis (tive mais 3 aprovações em vestibulares para a UFAM: Química, Psicologia e Direito). Há época, só existia a Universidade Federal do Amazonas como instituição de ensino superior no Amazonas. A concorrência, portanto, era muito acirrada. Quando lá cheguei, o perfil de meus colegas de sala de aula era completamente diferente do perfil que testemunho atualmente. Existia um absurdo interesse pela leitura e aprendizado. O esforço do alunado era patente, refletido em notas muito boas e desempenhos elevados. Havia, inclusive, uma saudável disputa entre os alunos sobre quem alcançava as melhores notas.
Trago à discussão, preliminarmente, os dados publicados pelo Conselho Federal de Contabilidade quanto aos exames de suficiência realizados nos anos de 2025, 2024 e 2023. Para quem não sabe, o exame de suficiência equivale ao Exame da Ordem dos Advogados do Brasil. Quem postula exercer a profissão de Contador é obrigado a ser nele aprovado. Os dados apresentados a seguir foram coletados do site do Conselho Federal de Contabilidade (Resultados - Exame de Suficiência) e dizem respeito ao desempenho das instituições de ensino superior em Contabilidade localizadas no Estado do Amazonas, inclusas, portanto, a Universidade Federal do Amazonas e a Universidade do Estado do Amazonas. Vamos aos números:
2023: neste ano foram realizadas duas edições do exame. Na primeira edição o percentual de reprovação alcançou 92,17%. Ou seja, apenas um aluno em 10 entre os que prestaram o exame obteve aprovação. Na segunda edição, o percentual de reprovados foi de 87,27%.
2024: na primeira edição o percentual de reprovados foi de 61,32%, enquanto na segunda edição alcançou 93,20%, maior, portanto, que o desempenho apresentado na primeira edição do exame de 2023.
2025: a primeira edição apresentou 62,08% de reprovados contra 85,64% da segunda edição.
Ou seja, só por esses números já se vê a qualidade do ensino/aprendizado do ensino superior de Contabilidade. São números que nos deixam "de boca aberta" de tão ruins que são.
Se deslocarmos o eixo de análise - agora considerando a região - a Região Norte aparece em primeiro lugar quanto ao número de reprovados. Vejamos:
2023: na primeira edição o percentual de reprovados na Região Norte foi de 91,27% contra 85,23% (Centro Oeste), 84,56% (Nordeste), 80,23% (Sudeste) e 78,24% (Sul). Na segunda edição: 89,70% (Região Norte) contra 84,31% (Centro Oeste), 85,12% (Nordeste), 80,56% (Sudeste) e 79,03% (Sul).
2024: na primeira edição o percentual de reprovados na Região Norte foi de 65,41% contra 56,36% (Centro Oeste), 53,69% (Nordeste), 65,76% (Sudeste) e 62,75% (Sul). Na segunda edição: 92,46% (Região Norte) contra 89,13% (Centro Oeste), 88,25% (Nordeste), 77,07% (Sudeste) e 86,03% (Sul).
2025: na primeira edição o percentual de reprovados na Região Norte foi de 82,95% contra 74,19% (Centro Oeste), 70,34% (Nordeste), 48,25% (Sudeste) e 52,77% (Sul). Na segunda edição: 60,77% (Região Norte) contra 53,39% (Centro Oeste), 49% (Nordeste), 47,57% (Sudeste) e 46,12% (Sul).
A região que menos apresenta número de reprovados é a região sul, mas, ainda assim, com números que causam preocupação com o rumo do ensino de Contabilidade no Brasil.
Considerando, porém, apenas as duas instituições superiores de ensino de Contabilidade que integram o setor público no Amazonas, os percentuais de reprovados foram os seguintes:
2025: na primeira edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 27,03% contra 39,39% da Universidade do Estado do Amazonas. Na segunda edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 29,41% contra 41,67% da Universidade do Estado do Amazonas.
2024: na primeira edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 29,09% contra 45,26% da Universidade do Estado do Amazonas. Na segunda edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 90,00% contra 83,02% da Universidade do Estado do Amazonas.
2023: na primeira edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 77,23% contra 68,75% da Universidade do Estado do Amazonas. Na segunda edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 72,22% contra 74,19% da Universidade do Estado do Amazonas.
Ou seja, visto por essa perspectiva, os números não são nada animadores. Muito pelo contrário. Resta a dúvida em torno da seguinte questão: até que ponto a universalização do ensino superior no Brasil foi, está sendo e será eficaz? Até que ponto a política educacional brasileira está no rumo certo? Será que nós não estamos perseguindo mais a quantidade quando poderíamos e deveríamos nos debruçar sobre a qualidade do ensino superior no Brasil?
Alguém, contudo, poderia argumentar: mas essa realidade expressa única e exclusivamente o desempenho do Curso de Ciências Contábeis. De fato, os números refletem a qualidade do ensino contábil no Brasil. No entanto, os números dos exames da Ordem dos Advogados não são muito diferentes disso não. A taxa média de reprovação gira em torno de 70% a 80%. Ou seja, é também um número assustador.
Quanto aos demais cursos (Engenharia, Medicina, Odontologia, Arquitetura, Geologia etc) não há dados, pois tais cursos não possuem um "exame de suficiência". No entanto, isso causa mais preocupação que consolo. Se aplicássemos um exame similar em tais cursos será que a realidade seria muito melhor? Qual a qualidade dos médicos que ganham os consultores médicos e hospitais públicos na atualidade??? Será que podemos confiar cegamente em sua qualificação tomando por referência apenas a qualificação alcançada em sua graduação??? E quanto aos odontólogos, o que dizer deles? Será que os engenheiros reúnem, de fato, condições para elaborarem plantas e croquis? Ou será que todos nós e a sociedade brasileira como um todo está correndo um risco sistêmico e generalizado sem se dar conta disso? Você se submeteria a um tratamento médico conduzido por um médico recém-formado??? Olha... (melhor não pensar muito nisso).
O ensino superior no Brasil virou negócio. Sinônimo de lucro. Por outro lado, retiraram as travas que funcionavam como barreiras para impedir o acesso ao ensino superior de candidatos que não reunissem condições de lá estar. Não que o ensino superior deva acolher um "conjunto de notáveis". Não é isso. Devemos, sim, promover a universalização do ensino superior, mas com RESPONSABILIDADE. Não de forma indiscriminada, como ocorreu nas últimas três décadas.
A figura a seguir retrata a mudança no sistema da educação superior no Brasil:
Note que antes era o postulante ao ensino superior que tinha a responsabilidade por se qualificar para ingressar no curso desejado. Agora, a configuração mudou. Foram as instituições de ensino superior que tiveram de se (des)qualificar para oportunizar o ingresso dos candidatos. Ou seja, foram as instituições de ensino superior que tiveram de se adaptar às condições dos estudantes postulantes ao bacharelado/licenciatura, quando deveria ser o contrário. Isso promoveu uma queda brutal na qualidade do ensino público superior nacional.
Agora eu pergunto: houve, de fato a tão sonhada universalização do acesso ao ensino superior no Brasil??? E se ocorreu, qual foi o preço pago??? Ao preço de vidas ceifadas? Ao preço de tratamentos médicos mal sucedidos e que deixaram sequelas para sempre nos pacientes? Ao preço de estruturas de concreto que podem ruir a qualquer momento? Qual o preço que, de fato, pagos? Você já pensou para pensar sobre isso? Não? Pois eu te recomendo a refletir urgentemente sobre tais questões. Sem exagero: a próxima vítima poderá ser VOCÊ.
O resultado está aí, em letras garrafais para quem quiser enxergar.
Portanto, houve grave depreciação na qualidade do ensino superior no Brasil. Isso explica o grande número de reprovações manifestados pelos exames da Ordem e do Conselho Federal de Contabilidade.
O que pode ser feito? Tenho algumas sugestões:
1 - O sistema de cotas atualmente em vigor deve ser urgentemente revisto. Nesse sentido, o governo deverá assumir a sua própria responsabilidade nesse processo, criando mecanismos para que os postulantes aos bacharelados e licenciaturas possam se qualificar, a fim de alcançarem o nível de exigências das instituições de ensino no Brasil.
2 - Incentivar as instituições de ensino a fortalecerem seus mecanismos de ingresso, promovendo a aprovação pelo mérito em detrimento de qualquer outro critério (cor, cultura etc.).
3 - Instituir exigências das universidades e faculdades particulares para que possam receber recursos federais ou estaduais que financiem os estudos de quem deseja nelas estudar. Uma dessas exigências residiria na obrigatoriedade de tais instituições particulares apresentarem, em contrapartida, um número mínimo de publicações em revistas científicas classe A, B e C, que tenham indexações em bases como SCOPUS, Web of Ocience e outras. Tal exigência recairia sobre alunos postulantes ao auxílio do governo. A meu ver, é justa a contrapartida, pois, afinal, é dinheiro público que está sendo investido.
4 - Conectar as universidades públicas ao setor privado, a fim de que elas possam gerar produtos e serviços demandados pela estrutura empresarial brasileira. Seria uma excelente troca: de um lado, as universidades contribuiriam para o desenvolvimento e crescimento nacional; de outro, as empresas remunerariam as atividades de pesquisas por meio de Royalties pagos a todos os que estivessem envolvidos nos projetos de pesquisa (alunos, professores, colaboradores) além, é claro das próprias instituições superiores de ensino. Isso ajudaria a reduzir a dependência das universidades públicas do orçamento governamental, além de ampliar o nível de remuneração dos professores que atuassem nessas instituições de ensino.
5 - Rever urgentemente os critérios de avaliação do ENADE, pois até hoje, não disse a que veio.
6 - O Conselho Federal de Contabilidade deverá também assumir suas próprias responsabilidades nesse processo de mudança e restabelecimento da qualidade do ensino contábil no Brasil. É muito bom permanecer no conforto dos escritórios e das reuniões eloquentes. Precisamos muito mais que isso. A sociedade brasileira, que depende direta ou indiretamente dos serviços contábeis, precisa ser respeitada em suas necessidades. Ninguém merece comprar um produto de má qualidade, principalmente quando se paga caro - via impostos e contribuições - para obtê-lo. Portanto, o CFC tem um grande papel a desempenhar. Pode ser indutor do desenvolvimento do aprendizado contábil no Brasil. Para tanto, deverá se orientar pelas melhores instituições do mundo. Em outras palavras: deve se nivelar "por cima" e fugir à tentação do conformismo com o atual modelo. Do contrário, os cursos de Contabilidade continuarão fazendo de conta que ensinam e os alunos, fazendo de conta que aprendem.
Em síntese, se não agirmos imediatamente, logo, logo nosso paciente passará da condição de estado crítico para a condição de estado terminal. Isso se não vir a óbito nos próximos anos. Para mim, o ensino superior no Brasil já está com o pé no cemitério.
Alipio Reis Firmo Filho
Conselheiro Substituto - TCE/AM
