sábado, 1 de agosto de 2026

POR QUE AS REDES SOCIAIS AUMENTAM A ANSIEDADE?

Este texto não foi elaborado por mim, mas por inteligência artificial. Nada obstante, achei muito interessante a resposta e decidi compartilhar com quem visita meu Blog.

Independente dessa particularidade, reflita sobre a resposta dada pela IA: 

POR QUE AS REDES SOCIAIS AUMENTAM A ANSIEDADE DAS PESSOAS?

Prof Alipio Reis Firmo Filho

As redes sociais tornaram-se uma das maiores fontes de ansiedade no mundo contemporâneo porque utilizam mecanismos que impactam diretamente a nossa neurobiologia, o sistema de recompensa do cérebro e a nossa psicologia evolutiva.

Aqui estão os principais motivos pelos quais elas geram e alimentam esse estado de alerta constante:

1. O Circuito da Dopamina e Recompensa Intermitente

As plataformas são projetadas com a mesma lógica dos caça-níqueis (mecanismo de recompensa intermitente e imprevisível):

  • A expectativa do "curtir": Quando você abre o aplicativo, puxa o feed para atualizar ou posta algo, seu cérebro libera dopamina — não pelo prazer da curtida em si, mas pela antecipação da recompensa.

  • A incerteza: Como você não sabe quando virá uma nova notificação ou um conteúdo interessante, o cérebro fica em um estado de vigília contínua, gerando ansiedade e a necessidade compulsiva de checar a tela a todo momento.

2. A Armadilha da Comparação Social

Evolutivamente, os seres humanos usam a comparação para entender sua posição e aceitação no grupo. O problema é a assimetria do ambiente digital:

  • O "Bastidor" vs. o "Palco": Nas redes, você compara a sua vida real — com todos os problemas, cansaço e incertezas — com o "mural dos melhores momentos" dos outros.

  • Distorção da realidade: Ver continuamente conquistas, corpos impecáveis, viagens e rotinas perfeitas ativa a sensação inconsciente de inadequação e de estar "ficando para trás" (Fear of Missing Out ou FOMO).

3. Sobrecarga Sensorial e Menos Foco (Carga Cognitiva)

O fluxo infinito de vídeos curtos, textos e imagens satura a memória de trabalho e encurta a capacidade de atenção sustentada:

  • Alternância rápida de contexto: O cérebro passa de um vídeo engraçado para uma notícia trágica em questão de segundos. Essa oscilação contínua impede que o sistema nervoso processe e digira as emoções adequadamente.

  • Perda do "foco profundo": A exposição prolongada a estímulos ultra-rápidos dificulta o engajamento em atividades que exigem concentração contínua (como leitura ou estudo), o que gera frustração e mais ansiedade ao tentar realizar tarefas do dia a dia.

4. Hipervigilância e Notificações

As notificações sonoras e visuais acionam o sistema de alerta do cérebro (a amígdala), interpretando cada apito como algo urgente que precisa de atenção imediata:

  • O corpo libera pequenas doses de cortisol e adrenalina (os hormônios do estresse) a cada interrupção, mantendo o organismo em um estado permanente de leve ameaça ou urgência.

5. Algoritmos de "Engajamento por Indignação"

Os algoritmos priorizam conteúdos que geram fortes reações emocionais, porque o medo, a indignação e a raiva mantêm as pessoas por mais tempo na tela do que o conteúdo calmo e reflexivo:

  • Isso cria o fenômeno do Doomscrolling — o hábito de rolar infinitamente telas com notícias e posts negativos —, levando o cérebro a acreditar que o ambiente ao redor é hostil e perigoso.

Estratégias de Proteção e Higiene Digital

Para reduzir esse impacto sem precisar se isolar do mundo digital, algumas mudanças de hábito ajudam a recuperar o controle:

  1. Desativar notificações não essenciais: Deixe ativas apenas chamadas ou mensagens diretas de pessoas importantes.

  2. Definir zonas/tempos livres de tela: Evite o celular nos primeiros 30 minutos ao acordar e na hora antes de dormir.

  3. Limpeza de feed: Deixe de seguir perfis que ativam sentimentos de inadequação, ansiedade ou irritação constante.

  4. Substituir a rolagem por pausas reais: Nos momentos de descanso, opte por fechar os olhos, caminhar ou fazer alguns ciclos de respiração calma (como o suspiro fisiológico) em vez de pegar o celular.



terça-feira, 28 de julho de 2026

SUPERÁVIT OU DÉFICIT ACUMULADO OU LUCROS E PREJUÍZOS ACUMULADOS: QUANDO USAR?

 Costumeiramente, todos nós sabemos que a Administração Pública não visa ao lucro quando realiza suas operações. Sua finalidade é prestar serviços públicos. Essa regra prevalece para os órgãos que compõe a administração direta, para as autarquias, para as fundações públicas e para os fundos. Já as empresas estatais - representadas pelas sociedades de economia mista, empresas públicas e suas subsidiárias - atuam no regime de mercado procurando obter lucros em suas operações (compra e venda).

O Plano de Contas Aplicado ao Setor Público (PCASP) relaciona duas contas para registrarem o resultado do exercício de uma e outra categoria. 

No entanto, há situações em que unidades pertencentes ao primeiro grupo também comercializam produtos. Ou seja, elas realizam operações comerciais como se fossem uma empresa estatal. Um exemplo disso, são as imprensas oficiais. Consideradas em muitos casos como autarquias, são organismos que vendem produtos e serviços. A imprensa oficial do Estado do Amazonas, p. exemplo, presta serviços de editoração de livros e revistas para o setor público e o privado. Outro exemplo é a Fundação Oswaldo Cruz. Ao fornecer (vender) medicamentos e imunizantes para o Ministério da Saúde a entidade obtém receitas em troca. 

A dúvida é a seguinte: quando tais unidades assim atuam - semelhante às empresas estatais - que conta contábil elas utilizam para expressar o resultado do exercício: a conta Superávits ou Déficits Acumulados (23710.00.00) ou a conta Lucros e Prejuízos Acumulados (23720.00.00)?

Essa questão confronta duas realidades opostas. De um lado, a natureza jurídica das entidades envolvidas que exige a opção por uma das referidas contas. Em se tratando das unidades da administração direta, autarquias e fundações públicas, a conta Superávits ou Déficits Acumulados deverá ser escolhida. Do contrário, a opção recairá sobre a conta Lucros ou Prejuízos Acumulados. 

Por outro lado, se nos orientarmos pela natureza da operação envolvida - com forte carga comercial - a conta Lucros ou Prejuízos Acumulados deverá ser escolhida. 

Em situações como essa prevalecerá a natureza do organismo governamental envolvido. Na hipótese apontada, o resultado do exercício deverá ser expresso por meio da conta Superávits ou Déficits Acumulados. Essa opção,  no entanto, não inviabiliza o uso da conta de custos (Custo das Mercadorias Vendidas, Custo dos Produtos Vendidos, Custo dos Serviços Prestados) em contrapartida com a baixa nos estoques. O uso dessa conta - normalmente associado às operações puramente empresariais - é perfeitamente compatível com a estrutura de registro contábil proposta. 

Considerados esses pressupostos, os registros contábeis compreenderiam a seguinte configuração:

1 - Pela baixa nos estoques das vacinas vendidas:

D - Custo dos Produtos Vendidos (38210.00.00)

C - Estoque

2 - Pelo registro da receita auferida na operação:

D - Conta Única (Recebimento à vista) ou D - Duplicatas a Receber: 11221.01.00 (Recebimento a Prazo)

C - Venda Bruta de Produtos (43210.00.00)

3 - Pelo encerramento do exercício:

3.1 - Pelo encerramento das variações patrimoniais diminutivas:

D - Superávits ou Déficits do Exercício (23711.01.00)

C - Custo dos Produtos Vendidos 

3.2 - Pelo encerramento das variações patrimoniais aumentativas:

D - Venda Bruta de Produtos

C - Superávits ou Déficits do Exercício (23711.01.000

Após esses lançamentos, a conta Superávits ou Déficits do Exercício  apresentará valores a débito e a crédito. O passo seguinte é apurar o resultado. O saldo encontrado deverá ser transferido para a conta patrimonial Superávits ou Déficits Acumulado. Não confundir as contas pela semelhança das nomenclaturas. A conta Superávits ou Déficits do Exercício é uma conta transitória e registra o resultado do exercício enquanto a outra, registra o resultado ACUMULADO. 


Prof. Alipio Reis Firmo Filho


domingo, 5 de julho de 2026

DA UTILIDADE DOS OBJETOS

Recordo-me das minhas aulas de química no nível médio - na minha época era chamado de Segundo Grau - em que fui apresentado a um mundo extraordinário: o mundo subatômico. Gostei tanto de tudo que aprendi em química que meu desejo era estudar química nuclear. Cheguei até a prestar um vestibular para química na Universidade Federal do Amazonas - há época, só existia ela em Manaus - e fui aprovado. Contudo, não cheguei a cursar porque já estava mergulhado em minha própria rotina de compromissos e horários. 

Nada obstante, três conceitos me chamaram muito a atenção quando ainda era um estudante de nível médio: matéria, corpo e objeto. Segundo Ricardo Feltre - autor cujo livro me serviu de base para meus estudos em química -, matéria é "tudo aquilo que tem massa e ocupa lugar no espaço", a exemplo da água, do metal, do plástico ou da madeira. Corpo, por sua vez, "é qualquer porção limitada de matéria", como um pedaço de madeira, um pedaço de plástico ou um litro de água. O conceito de objeto, por sua vez, está relacionado à utilidade e à função que um corpo está animado. No magistério do querido Ricardo Feltre, um objeto "corresponde a um corpo que adquiriu uma forma ou utilidade específica". Ex: um alfinete, uma panela, uma garrafa de café ou uma cadeira. Também pode ser uma aeronave ou um automóvel. Todos eles tem uma coisa em comum: todos possuem uma função. Foram criados para realizar algo.  

Mas, o que diferencia um objeto de um corpo? Respondo: é sua utilidade. Um corpo não tem utilidade alguma, ao contrário do objeto, que já nasce com uma função específica. 

Segundo o google: um alfinete é usado principalmente para unir, marcar ou segurar tecidos, papéis e outros materiais macios. Uma panela é usada para preparar alimentos. Uma garrafa de café foi criada para conservar a temperatura e o frescor de uma bebida. As cadeiras foram criadas para oferecer descanso e manter a postura ao sentar-se. Se percorrêssemos todos os objetos do mundo inteiro descobriríamos sempre uma utilidade por trás de cada um deles. 

Os objetos são, portanto, um produto do intelecto humano. Ao nascerem, já trazem de berço uma função específica. 


Do Uso Inadequado dos Objetos e suas consequências


Muito embora os objetos já tenham uma aplicabilidade específica, não é incomum os utilizarmos para funções diferentes daquelas que eles foram criados. Tudo na base da improvisação. 

No entanto, isso causa problemas. Aliás, grandes problemas.

Uma caneta foi feita para escrever. Não sei na atualidade, mas, na minha época, havia muita gente que usava a tampa de caneta para aliviar coceiras ou incômodos no canal auditivo, assim como chaves, grampos ou fósforos. Os médicos sempre recomendaram que a prática pode perfurar o tímpano causando distúrbios de audição irreversíveis. 

Da mesma forma, usar garfos e colheres em panelas antiaderentes comprometem sua utilidade, além de liberar substâncias tóxicas. 

Bastam esses dois exemplos para concluirmos: podemos usar qualquer objeto tentando resolver nossos próprios problemas, mas NÃO DEVEMOS. Devemos respeitar sua função. Se trocarmos o "Não devemos" pelo "podemos" provavelmente teremos problemas graves, alguns, irreversíveis. 

Eu costumo dizer o seguinte: quando o homem decreta suas próprias leis e regulamentos sempre acaba mal. 

"Decretar suas próprias leis e regulamentos" é fazer diferente da regra usual. É fazer o contrário da função original. É ignorar o natural uso dos objetos. 

"Podeis comer de todo fruto, mas não da árvore do conhecimento do bem e do mal" (Gênesis 2: 16-17).

O que fez Eva e depois Adão?

Comeram do fruto proibido decretando sua própria lei. Ou seja, trocaram o DEVER pelo PODER. Qual a consequência? Não preciso responder. Todos nós sabemos.

Filosoficamente falando, essa afirmação não é aplicável apenas ao mundo cultural, isto é, ao mundo criado e formado pelas criaturas concebidas pelo intelecto humano. Ela é válida também - e principalmente - para o MUNDO NATURAL, isto é, por tudo aquilo que já existe antes de o próprio homem existir. 

O próprio homem é, inclusive, um produto desse mundo proveniente da natureza. Ele mesmo compõe o mundo natural. 

Portanto, em sentido lato, o homem é também um objeto orquestrado pelas mãos do Criador. Moldado à sua imagem e semelhança como afirma, aliás, o Livro do Genesis.  Ao fazê-lo, Ele também atribuiu-lhe uma função ou utilidade. Qual a função do homem na Terra?  Segundo as Sagradas Escrituras, ele foi criado como "mordomo" e "guardião da criação". Ele é seu administrador, seu síndico, sua autoridade máxima na função de gerenciar o planeta. Deve conservá-lo e mantê-lo. Nunca prejudicá-lo ou destrui-lo. 

É por isso que a escravidão nos causa tanta repulsa. Trata-se de um desvirtuamento da função do homem na Terra. O uso do homem como se fosse um objeto. O uso do homem fora das suas funções naturais.

É por isso também que a fissão nuclear (divisão do núcleo do átomo), quando usada fora de suas finalidades essenciais, já nos deu muitas dores de cabeça: pensemos na bomba de Hiroshima e Nagasaki.  

A radiação atômica é ótima na radioterapia quando, por exemplo, combate tumores malignos ou é usada na radiologia. No entanto, fora dessa finalidade natural, pode causar a morte ou deixar sequelas irreversíveis.

Olhando a minha volta, percebo que muita coisa mudou na última metade de século para cá. 

Muitas regras foram quebradas. Não há mais respeito aos naturais limites impostos pela própria natureza. O homem, no anseio de criar suas próprias regras, vai devastando a si mesmo e, com ele, arrasta o planeta para um futuro não muito difícil de imaginar.

Hoje enxergo um mundo cinzento. Um mundo desbotado. Um mundo que perdeu e tem perdido sua essência a cada dia. Um mundo que está cada vez mais deixando de brilhar e de ter vida em abundância. Um mundo de artificialismos. Um mundo repleto de adaptações. De tentativas e erros. Um mundo desencontrado, sem rumo, sem fim e sem sentido. Um mundo infeliz em sua essência. Sem vida e sem futuro. Um mundo que se desgarrou da finalidade primeira dos objetos.

O que esperar de um mundo assim? Qual o futuro desejado? Onde iremos chegar? 

Como disse: todas as vezes que o homem decreta suas próprias leis e regulamentos acaba mal. 

E você? Está fazendo bom uso dos objetos à sua volta? Lembre-se da diferença entre PODER e DEVER

"Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém" (1º Coríntios 6:12).

Para refletir.


Alipio Reis Firmo Filho

Conselheiro Substituto - TCE/AM   

    


  

     

quinta-feira, 2 de julho de 2026

PÉROLAS DE ALBERT EINSTEIN: DIFICULDADES DE FALAR

 Einstein começou a falar após os dois anos. A demora foi tanta que seus pais ficaram tão preocupados com ele que decidiram consultar um médico. A dificuldade no uso da fala levou a empregada da família a apelidá-lo de "o pateta". Outros familiares seus o rotularam de "quase deficiente". Cada frase dita por ele, por mais simples que fosse, repetia para si mesmo movimentando os lábios. A dificuldade dele com a fala era tanta que muitas pessoas temiam que ele nunca conseguiria dominar a própria língua (Einstein por Walter Isaacson, pp. 27/28)

Comentário: alguns biógrafos de Einstein defendem que ele teria um grau leve de autismo. Talvez, por conta de comportamentos e características incomuns que ele tinha. A demora em falar talvez tenha sido um desses traços. Também o fato de Einstein ter sido alguém que não gostava de viver em grupos preferindo viver no seu mundo, isolado, e com pouquíssimos amigos. A Academia Olympia (que abordarei mais para frente) é um exemplo típico. Foi fundada por Einstein em 1902. Contava apenas com ele e mais dois amigos:  Conrad Habicht e Maurice Solovine. A finalidade da academia era discutir filosofia, literatura e física no apartamento de Einstein. No entanto, é preciso ressaltar que a maioria dos biógrafos não defendem a ideia de autismo. Para eles, Albert Einstein era uma pessoa comum, sem nenhum traço que indicasse a presença da deficiência. 

domingo, 21 de junho de 2026

A FALÊNCIA DA EDUCAÇÃO SUPERIOR NO BRASIL

Dados relativos ao acesso e à universalização do ensino superior no Brasil tem sido divulgados pela grande mídia e pelo próprio governo federal como sinônimo de sucesso das políticas educacionais ao longo das duas ou três últimas décadas.  

Segundo o IBGE, o percentual de adultos com diploma universitário triplicou no século, refletindo os seguintes marcos recentes: Em 2010 11,3% da população brasileira tiveram acesso ao nível superior no Brasil. Em 2022, isto é, 12 anos mais tarde, esse percentual saltou para 18,4% da população. Ou seja, considerando apenas esses dados, houve um crescimento significativo quanto à universalização do ensino superior em pouco mais de uma década.
Nessa mesma linha de consideração, dados do INEP relativos ao período de 2014 a 2024 apontam indicadores promissores quanto ao número de ingressos dos alunos no ensino superior: 
a) Bacharelado: houve incremento de 54,7% no período.
b) Licenciatura: houve acréscimo de 16,2%.
c) Tecnólogo: aumento de 29,1%.

Ou seja, sob o ponto de vista da pura estatística educacional, deveríamos nos orgulhar do desempenho mais do que satisfatório apresentado. Só por esses números, a universalização do ensino superior no Brasil está sendo um sucesso e caminha a passos largos para oportunizar a mais pessoas a possibilidade de concluir um bacharelado ou uma licenciatura.  

Enquanto educador, porém, prefiro receber tais resultados com reservas. Há mais de 30 anos exerço a atividade docente. Desses, 8 anos dedicados ao magistério superior em universidades públicas. Primeiramente, na Universidade Federal do Amazonas e atualmente na Universidade do Estado do Amazonas.  Portanto, posso falar com segurança sobre minha experiência em sala de aula que, adianto, não tem sido das melhores. O perfil da grande maioria de quem chega ao Bacharelado em Contabilidade - sou professor de Ciências Contábeis - está muito aquém do nível desejado. 

Em 1986, iniciei meu primeiro curso superior: o de Ciências Contábeis (tive mais 3 aprovações em vestibulares para a UFAM: Química, Psicologia e Direito). Há época, só existia a Universidade Federal do Amazonas como instituição de ensino superior no Amazonas. A concorrência, portanto, era muito acirrada. Quando lá cheguei, o perfil de meus colegas de sala de aula era completamente diferente do perfil que testemunho atualmente. Existia um absurdo interesse pela leitura e aprendizado. O esforço do alunado era patente, refletido em notas muito boas e desempenhos elevados. Havia, inclusive, uma saudável disputa entre os alunos sobre quem alcançava as melhores notas.  

Trago à discussão, preliminarmente, os dados publicados pelo Conselho Federal de Contabilidade quanto aos exames de suficiência realizados nos anos de 2025, 2024 e 2023. Para quem não sabe, o exame de suficiência equivale ao Exame da Ordem dos Advogados do Brasil. Quem postula exercer a profissão de Contador é obrigado a ser nele aprovado.  Os dados apresentados a seguir foram coletados do site do Conselho Federal de Contabilidade (Resultados - Exame de Suficiência) e dizem respeito ao desempenho das instituições de ensino  superior em Contabilidade localizadas no Estado do Amazonas, inclusas, portanto, a Universidade Federal do Amazonas e a Universidade do Estado do Amazonas. Vamos aos números:

2023: neste ano foram realizadas duas edições do exame.  Na primeira edição o percentual de reprovação alcançou 92,17%. Ou seja, apenas um aluno em 10 entre os que prestaram o exame obteve aprovação. Na segunda edição, o percentual de reprovados foi de 87,27%. 

2024: na primeira edição o percentual de reprovados foi de 61,32%, enquanto na segunda edição alcançou 93,20%, maior, portanto, que o desempenho apresentado na primeira edição do exame de 2023. 

2025: a primeira edição apresentou 62,08% de reprovados contra 85,64% da segunda edição. 

Ou seja, só por esses números já se vê a qualidade do ensino/aprendizado do ensino superior de Contabilidade. São números que nos deixam "de boca aberta" de tão ruins que são. 

Se deslocarmos o eixo de análise - agora considerando a região - a Região Norte aparece em primeiro lugar quanto ao número de reprovados. Vejamos:

2023: na primeira edição o percentual de reprovados na Região Norte foi de 91,27% contra 85,23% (Centro Oeste), 84,56% (Nordeste), 80,23%  (Sudeste) e 78,24% (Sul). Na segunda edição: 89,70% (Região Norte) contra  84,31% (Centro Oeste), 85,12% (Nordeste), 80,56%  (Sudeste) e 79,03% (Sul). 

2024: na primeira edição o percentual de reprovados na Região Norte foi de 65,41% contra 56,36% (Centro Oeste), 53,69% (Nordeste), 65,76%  (Sudeste) e 62,75% (Sul). Na segunda edição: 92,46% (Região Norte) contra  89,13% (Centro Oeste), 88,25% (Nordeste), 77,07%  (Sudeste) e 86,03% (Sul). 

2025: na primeira edição o percentual de reprovados na Região Norte foi de 82,95% contra 74,19% (Centro Oeste), 70,34% (Nordeste), 48,25%  (Sudeste) e 52,77% (Sul). Na segunda edição: 60,77% (Região Norte) contra  53,39% (Centro Oeste), 49% (Nordeste), 47,57%  (Sudeste) e 46,12% (Sul). 

A região que menos apresenta número de reprovados é a região sul, mas, ainda assim, com números que causam preocupação com o rumo do ensino de Contabilidade no Brasil.

Considerando, porém, apenas as duas instituições superiores de ensino de Contabilidade que integram o setor público no Amazonas, os percentuais de reprovados foram os seguintes: 

2025: na primeira edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 27,03% contra 39,39% da Universidade do Estado do Amazonas. Na segunda edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 29,41% contra 41,67% da Universidade do Estado do Amazonas.

2024: na primeira edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 29,09% contra 45,26% da Universidade do Estado do Amazonas. Na segunda edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 90,00% contra 83,02% da Universidade do Estado do Amazonas.

2023: na primeira edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 77,23% contra 68,75% da Universidade do Estado do Amazonas. Na segunda edição, o percentual de reprovados da Universidade Federal do Amazonas foi 72,22% contra 74,19% da Universidade do Estado do Amazonas.

Ou seja, visto por essa perspectiva, os números não são nada animadores. Muito pelo contrário. Resta a dúvida em torno da seguinte questão: até que ponto a universalização do ensino superior no Brasil foi, está sendo e será eficaz? Até que ponto a política educacional brasileira está no rumo certo? Será que nós não estamos perseguindo mais a quantidade quando poderíamos e deveríamos nos debruçar sobre a qualidade do ensino superior no Brasil? 

Alguém, contudo,  poderia argumentar: mas essa realidade expressa única e exclusivamente o desempenho do Curso de Ciências Contábeis. De fato, os números refletem a qualidade do ensino contábil no Brasil. No entanto, os números dos exames da Ordem dos Advogados não são muito diferentes disso não. A taxa média de reprovação gira em torno de 70% a 80%. Ou seja, é também um número assustador. 

Quanto aos demais cursos (Engenharia, Medicina, Odontologia, Arquitetura, Geologia etc) não há dados, pois tais cursos não possuem um "exame de suficiência". No entanto, isso causa mais preocupação que consolo. Se aplicássemos um exame similar em tais cursos será que a realidade seria muito melhor? Qual a qualidade dos médicos que ganham os consultores médicos e hospitais públicos na atualidade??? Será que podemos confiar cegamente em sua qualificação tomando por referência apenas a qualificação alcançada em sua graduação??? E quanto aos odontólogos, o que dizer deles? Será que os engenheiros reúnem, de fato, condições para elaborarem plantas e croquis? Ou será que todos nós e a sociedade brasileira como um todo está correndo um risco sistêmico e generalizado sem se dar conta disso? Você se submeteria a um tratamento médico conduzido por um médico recém-formado???   Olha... (melhor não pensar muito nisso). 

O ensino superior no Brasil virou negócio. Sinônimo de lucro. Há muitas universidades e faculdades particulares que são verdadeiras empresas. Buscam unicamente o lucro e não têm compromisso com a qualidade do ensino. Nelas, a regra prevalecente é: É PROIBIDO REPROVAR! A reprovação significa a fuga do aluno e, consequentemente, menos receitas no final do mês. Converse com qualquer professor que lá ensino e colha sua opinião. Você ficará estarrecido! Não há fiscalização. Não há controle de qualidade. Não há absolutamente nada que freie essa prática no Brasil. Por isso, o ensino está do jeito que está. 

Nas universidades públicas a coisa não é diferente. Existe uma massa de manobra que, na base do "jeitinho" pressiona os professores à aprovação de seu alunado. Vale qualquer coisa para engrossar as estatísticas da aprovação: notas dadas graciosamente, complemento de notas, trabalhos feitos de qualquer jeito apenas para se ter uma justificativa para a nota atribuída. A regra é a mesma: É PROIBIDO REPROVAR! Já ouvi de coordenadores de cursos que a reprovação dos alunos significarão baixas notas na avaliação da instituição no Enade. Então fica assim: "eu te aprovo e você me aprova, ok?".

Por outro lado, retiraram as travas que funcionavam como barreiras para impedir o acesso ao ensino superior de candidatos que não reunissem condições de lá estar. Não que o ensino superior deva acolher um "conjunto de notáveis". Não é isso. Devemos, sim, promover a universalização do ensino superior, mas com RESPONSABILIDADE. Não de forma indiscriminada, como ocorreu nas últimas três décadas. 

A figura a seguir retrata a mudança no sistema da educação superior no Brasil:




Note que antes era o postulante ao ensino superior que tinha a responsabilidade por se qualificar para ingressar no curso desejado. Agora, a configuração mudou. Foram as instituições de ensino superior que tiveram de se (des)qualificar para oportunizar o ingresso dos candidatos. Ou seja, foram as instituições de ensino superior que tiveram de se adaptar às condições dos estudantes postulantes ao bacharelado/licenciatura, quando deveria ser o contrário.  Isso promoveu uma queda brutal na qualidade do ensino público superior nacional.

Na base de tudo isso o próprio sistema educacional brasileiro cuidou para evitar a reprovação nos ensinos médio e fundamental. A fórmula é a mesma: É PROIBIDO REPROVAR! Reprovar é ruim para as estatísticas! Por isso, muitos professores das escolas públicas sofrem e até adoecem frente a esse estado de coisas. O resultado é uma aprovação em massa de alunos que não tem a mínima condição de se  sustentarem em voos mais altos. Quando chegam ao ensino superior, o prejuízo é grande.

Dados divulgados recentemente pelo  Centro para Rankings Universitários Mundiais (CWUR) apontam queda nas 45 universidades das 52 universidades brasileiras que integram o ranking. Isso representa 87% das instituições. Apenas cinco universidades brasileiras subiram de posição, enquanto duas mantiveram seus postos e 44 tiveram queda especificamente no indicador de pesquisa. A USP é a instituição brasileira mais "bem colocada": 119ª posição. Ela foi uma das que tiveram queda no ranking. A segunda mais "bem colocada" é a UFRJ: 346º lugar. A queda generalizada, que atingiu 87% das instituições brasileiras, é atribuída principalmente à queda no desempenho em pesquisa e à crescente competição global com instituições mais bem financiadas. A íntegra da reportagem pode ser obtida AQUI.

Agora eu pergunto: houve, de fato a tão sonhada universalização do acesso ao ensino superior no Brasil??? E se ocorreu, qual foi o preço pago??? O preço de vidas ceifadas? O preço de tratamentos médicos mal sucedidos e que deixaram sequelas para sempre nos pacientes? O preço de estruturas de concreto que podem ruir a qualquer momento? Qual o preço que, de fato, foi pago? Você já parou para pensar sobre isso? Não? Pois eu te recomendo a refletir urgentemente sobre tais questões. Sem exagero: a próxima vítima poderá ser VOCÊ.

 O resultado está aí, em letras garrafais, para quem quiser enxergar. 

Portanto, houve grave depreciação na qualidade do ensino superior no Brasil. Isso explica o grande número de reprovações manifestados no exames da Ordem e do Conselho Federal de Contabilidade. 

O que pode ser feito? Tenho algumas sugestões: 

1 - O sistema de cotas atualmente em vigor deve ser urgentemente revisto. Nesse sentido, o governo deverá assumir a sua própria responsabilidade nesse processo, criando mecanismos para que os postulantes aos bacharelados e licenciaturas possam se qualificar, a fim de alcançarem o nível de exigências das instituições de ensino no Brasil. 

2 - Incentivar as instituições de ensino a fortalecerem seus mecanismos de ingresso, promovendo a aprovação pelo mérito em detrimento de qualquer outro critério (cor, cultura etc.). 

3 - Instituir exigências das universidades e faculdades particulares para que possam receber recursos federais ou estaduais que financiem os estudos de quem deseja nelas estudar. Uma dessas exigências residiria na obrigatoriedade de tais instituições particulares apresentarem, em contrapartida, um número mínimo de publicações em revistas científicas classe A, B e C, que tenham indexações em bases como SCOPUS, Web of Science e outras. Tal exigência recairia sobre alunos postulantes ao auxílio do governo. A meu ver, é justa a contrapartida, pois, afinal, é dinheiro público que está sendo investido. 

4 - Conectar as universidades públicas ao setor privado, a fim de que elas possam gerar produtos e serviços demandados pela estrutura empresarial brasileira. Seria uma excelente troca: de um lado, as universidades contribuiriam para o desenvolvimento e crescimento nacional; de outro, as empresas remunerariam as atividades de pesquisas por meio de Royalties pagos a todos os que estivessem envolvidos nos projetos de pesquisa (alunos, professores, colaboradores) além, é claro das próprias instituições superiores de ensino. Isso ajudaria a reduzir a dependência das universidades públicas do orçamento governamental, além de ampliar o nível de remuneração dos professores que atuassem nessas instituições de ensino. 

5 - Rever urgentemente os critérios de avaliação do ENADE, pois até hoje, não disse a que veio. 

6 - O Conselho Federal de Contabilidade deverá também assumir suas próprias responsabilidades nesse processo de mudança e restabelecimento da qualidade do ensino contábil no Brasil. É muito bom permanecer no conforto dos escritórios e das reuniões eloquentes. Precisamos muito mais que isso. A sociedade brasileira, que depende direta ou indiretamente dos serviços contábeis, precisa ser respeitada em suas necessidades. Ninguém merece comprar um produto de má qualidade, principalmente quando se paga caro - via impostos e contribuições - para obtê-lo. Portanto, o CFC tem um grande papel a desempenhar. Pode ser indutor do desenvolvimento do aprendizado contábil no Brasil. Para tanto, deverá se orientar pelas melhores instituições do mundo. Em outras palavras: deve se nivelar "por cima" e fugir à tentação do conformismo com o atual modelo. Do contrário, os cursos de Contabilidade continuarão fazendo de conta que ensinam e os alunos, fazendo de conta que aprendem.   

7 - Revisão profunda e imediata dos critérios para a aprovação nos níveis médio e fundamental. O sistema deve ser capaz de filtrar, com precisão cirúrgica, quem tem e quem não tem condições de alcançar níveis mais elevados. O sistema deve oferecer saídas para os que apresentem tais dificuldades. Ele deve: nivelar seus conhecimentos, retirar suas dúvidas, fechar suas lacunas para, ao final, dar condições a eles de subirem em sua graduação. Só assim terão condições de evoluírem no aprendizado. Dou uma dica: APRENDAM COM QUEM JÁ SABE FAZER UMA EDUCAÇÃO DE QUALIDADE. Converse com outros países. Converse com especialistas de sucesso. Traga pra cá o que realmente deu certo em outros sistemas educacionais no mundo. Às vezes, não precisamos começar do zero.     

Em síntese, se não agirmos imediatamente,  nosso paciente passará da condição de estado crítico para a condição de estado terminal. Isso se não vir a óbito nos próximos anos. Sabe o que penso? Anota aí: o ensino superior no Brasil já está com o pé no cemitério. Portanto, temos mais a lamentar que comemorar.

É como penso.


Alipio Reis Firmo Filho

Conselheiro Substituto - TCE/AM