Embora não percebamos, todos nós, que viemos a este mundo, recebemos uma caixa. Ela foi um presente que nos foi dado, embora costumeiramente sempre a ignoramos e, muitos vezes, vivemos como se ela não existisse.
Essa caixa possui as mesmas dimensões, independentemente se somos humildes ou afortunados, crentes ou descrentes, intelectuais ou iletrados. Suas dimensões são exatamente as mesmas para todos os mortais. Ela não faz distinção de ninguém. Sempre oferece a mesma capacidade a cada um de nós. Aliás, desde que o homem se conhece por homem sempre ela foi a mesma, nem mais, nem menos.
Desde nossa tenra infância convivemos com ela, estejamos dormindo ou acordados, trabalhando ou estudando, em momentos de lazer ou simplesmente refletindo sobre a vida. Essa caixa conhece nossa intimidade como ninguém. Talvez até mais do que nós mesmos. Ela guarda nossos segredos mais profundos. Dialoga com nossos sonhos, nossos anseios e nosso propósito de vida.
Embora muito próxima de nós, ela não interfere em nossa rotina. Não nos critica quando erramos, não nos aplaude quando acertamos, simplesmente é indiferente ao nosso dia a dia. Sua indiferença, entretanto, não significa que ela não se importa conosco. Muito pelo contrário. Ela continua sempre à nossa disposição, tentando nos auxiliar no que for útil. Afinal, como um anjo da guarda, ela nos foi dada para estar conosco até o último instante de nossa vida. Nunca nos abandona, mesmo nos momentos mais difíceis. Qualquer que seja o tamanho da nossa dificuldade, ela estará sempre ali para nos ajudar e sempre nos oferecer uma segunda oportunidade. Ela sempre nos observa, qualquer que seja o lugar ou a ocasião.
Desde quando chegamos a este mundo começamos a colocar coisas dentro dessa caixa. Coisas grandes ou pequenas. Importantes ou banais. Coisas de muito valor ou sem valor algum. Aliás, foi justamente para isso que ela nos foi dada.
Há 40 ou 50 anos atrás essa caixa conseguia guardar quase tudo que nela colocávamos. Ela atendia plenamente às nossas necessidades. Sempre ficávamos satisfeitos com ela. Entretanto, com o transcurso de nossa existência, começamos a achar que ela se tornou menor. É como se ela tivesse encolhido, pois já não conseguíamos mais colocar tantas coisas dentro dela. Por mais que tentássemos, ela já não mais respondia aos nossos anseios e expectativas como antes.
Começamos a criticá-la. Gostaríamos que ela tivesse uma dimensão maior, pois, somente assim, ela abarcaria tudo o que precisássemos nela armazenar. Porém, o problema não está na dimensão da caixa. O problema está em nós mesmos. A caixa continua sendo do mesmo tamanho que era antes. Nem mais, nem menos. Ela continua ali, sempre à nossa disposição como sempre. Discreta. Quase que imperceptível. Sem alarde e sem holofotes. Ela continua seguindo o nosso ritmo, do jeito e da forma que sempre desejamos.
Essa caixa tem um nome. Se chama TEMPO.
Desde que me entendo por gente o dia sempre teve 24 horas. O mês, 30/31 dias. O ano, 365/366 dias. Nunca diferente disso. Você que me lê agora também deve ter a mesma experiência que eu.
Com o frenesi da vida moderna, a agenda cada vez mais apertada, os inúmeros compromissos e os afazeres cada vez mais exigentes se tornou cada vez mais comum dizermos: "Gostaria que o dia tivesse 25, 26, talvez 30 horas a mais". Já não é possível conviver com um tempo tão escasso. Tão diminuto.
Meu amigo, minha amiga, não é bem por aí.
Nada precisa ser mudado. Tudo está como sempre esteve. Nós é que mudamos.
O tempo continua a ser o mesmo para todos nós. O que mudou foi o número de nossos compromissos.
Temos o número de horas suficientes. O mesmo número de horas que a humanidade teve desde que o homem se entende por gente. Quanto a isso, não há do que reclamar.
Porém, a vida "moderna" nos trouxe um cem número de preocupações. A cada dia, começamos a colocar mais compromissos dentro de nossa caixa, ou melhor, de nosso tempo. Sem nos darmos conta, 24 horas deixou de ser suficiente para guardarmos tantas coisas. Foi quando nasceu o desejo de um dia mais elástico. Maior e com mais horas...
Desejo infeliz.
Nunca conseguiremos aumentar o tamanho de nossa caixa, é dizer, do nosso tempo.
Não é o tempo que deve ser mudado. Somos nós que precisamos aprender a dizer NÃO para todos os afazeres, principalmente aqueles que nos afastam da convivência de quem amamos, do que gostarmos e de tudo aquilo que nos faz bem e feliz. Só assim nossa caixa, isto é, nosso tempo, será capaz de armazenar tudo o que for IMPORTANTE armazenar.
O desejo de um tempo maior se assemelha àquele indivíduo que gostaria de ganhar cada vez mais para comportar sua infinita sede de consumo. Nunca irá conseguir.
Assim como os ganhos são o limite de nosso consumo, o tempo nos impede de realizar infinitas atividades. Se não fosse ele - o tempo - nossa sede infinita de realizações nos aniquilaria, tornando-nos esgotados e incapaz de prosseguir na própria existência.
Portanto, não lute contra sua caixa, isto é, contra seu tempo. O tempo é sábio. Nós é que somos difíceis.
Em nossa trajetória de vida, devemos escolher criteriosamente o que iremos colocar em nossa caixa. Só assim, saberemos conviver em paz com ela.
Lembre-se: O TEMPO É O SENHOR DE MUITOS APRENDIZADOS E O REMÉDIO PARA MUITAS FERIDAS.
Pense nisso. Reflita sobre isso.
Alipio Reis Firmo Filho
Conselheiro Substituto - TCE/AM