domingo, 5 de julho de 2026

DA UTILIDADE DOS OBJETOS

Recordo-me das minhas aulas de química no nível médio - na minha época era chamado de Segundo Grau - em que fui apresentado a um mundo extraordinário: o mundo subatômico. Gostei tanto de tudo que aprendi em química que meu desejo era estudar química nuclear. Cheguei até a prestar um vestibular para química na Universidade Federal do Amazonas - há época, só existia ela em Manaus - e fui aprovado. Contudo, não cheguei a cursar porque já estava mergulhado em minha própria rotina de compromissos e horários. 

Nada obstante, três conceitos me chamaram muito a atenção quando ainda era um estudante de nível médio: matéria, corpo e objeto. Segundo Ricardo Feltre - autor cujo livro me serviu de base para meus estudos em química -, matéria é "tudo aquilo que tem massa e ocupa lugar no espaço", a exemplo da água, do metal, do plástico ou da madeira. Corpo, por sua vez, "é qualquer porção limitada de matéria", como um pedaço de madeira, um pedaço de plástico ou um litro de água. O conceito de objeto, por sua vez, está relacionado à utilidade e à função que um corpo está animado. No magistério do querido Ricardo Feltre, um objeto "corresponde a um corpo que adquiriu uma forma ou utilidade específica". Ex: um alfinete, uma panela, uma garrafa de café ou uma cadeira. Também pode ser uma aeronave ou um automóvel. Todos eles tem uma coisa em comum: todos possuem uma função. Foram criados para realizar algo.  

Mas, o que diferencia um objeto de um corpo? Respondo: é sua utilidade. Um corpo não tem utilidade alguma, ao contrário do objeto, que já nasce com uma função específica. 

Segundo o google: um alfinete é usado principalmente para unir, marcar ou segurar tecidos, papéis e outros materiais macios. Uma panela é usada para preparar alimentos. Uma garrafa de café foi criada para conservar a temperatura e o frescor de uma bebida. As cadeiras foram criadas para oferecer descanso e manter a postura ao sentar-se. Se percorrêssemos todos os objetos do mundo inteiro descobriríamos sempre uma utilidade por trás de cada um deles. 

Os objetos são, portanto, um produto do intelecto humano. Ao nascerem, já trazem de berço uma função específica. 


Do Uso Inadequado dos Objetos e suas consequências


Muito embora os objetos já tenham uma aplicabilidade específica, não é incomum os utilizarmos para funções diferentes daquelas que eles foram criados. Tudo na base da improvisação. 

No entanto, isso causa problemas. Aliás, grandes problemas.

Uma caneta foi feita para escrever. Não sei na atualidade, mas, na minha época, havia muita gente que usava a tampa de caneta para aliviar coceiras ou incômodos no canal auditivo, assim como chaves, grampos ou fósforos. Os médicos sempre recomendaram que a prática pode perfurar o tímpano causando distúrbios de audição irreversíveis. 

Da mesma forma, usar garfos e colheres em panelas antiaderentes comprometem sua utilidade, além de liberar substâncias tóxicas. 

Bastam esses dois exemplos para concluirmos: podemos usar qualquer objeto tentando resolver nossos próprios problemas, mas NÃO DEVEMOS. Devemos respeitar sua função. Se trocarmos o "Não devemos" pelo "podemos" provavelmente teremos problemas graves, alguns, irreversíveis. 

Eu costumo dizer o seguinte: quando o homem decreta suas próprias leis e regulamentos sempre acaba mal. 

"Decretar suas próprias leis e regulamentos" é fazer diferente da regra usual. É fazer o contrário da função original. É ignorar o natural uso dos objetos. 

"Podeis comer de todo fruto, mas não da árvore do conhecimento do bem e do mal" (Gênesis 2: 16-17).

O que fez Eva e depois Adão?

Comeram do fruto proibido decretando sua própria lei. Ou seja, trocaram o DEVER pelo PODER. Qual a consequência? Não preciso responder. Todos nós sabemos.

Filosoficamente falando, essa afirmação não é aplicável apenas ao mundo cultural, isto é, ao mundo criado e formado pelas criaturas concebidas pelo intelecto humano. Ela é válida também - e principalmente - para o MUNDO NATURAL, isto é, por tudo aquilo que já existe antes de o próprio homem existir. 

O próprio homem é, inclusive, um produto desse mundo proveniente da natureza. Ele mesmo compõe o mundo natural. 

Portanto, em sentido lato, o homem é também um objeto orquestrado pelas mãos do Criador. Moldado à sua imagem e semelhança como afirma, aliás, o Livro do Genesis.  Ao fazê-lo, Ele também atribuiu-lhe uma função ou utilidade. Qual a função do homem na Terra?  Segundo as Sagradas Escrituras, ele foi criado como "mordomo" e "guardião da criação". Ele é seu administrador, seu síndico, sua autoridade máxima na função de gerenciar o planeta. Deve conservá-lo e mantê-lo. Nunca prejudicá-lo ou destrui-lo. 

É por isso que a escravidão nos causa tanta repulsa. Trata-se de um desvirtuamento da função do homem na Terra. O uso do homem como se fosse um objeto. O uso do homem fora das suas funções naturais.

É por isso também que a fissão nuclear (divisão do núcleo do átomo), quando usada fora de suas finalidades essenciais, já nos deu muitas dores de cabeça: pensemos na bomba de Hiroshima e Nagasaki.  

A radiação atômica é ótima na radioterapia quando, por exemplo, combate tumores malignos ou é usada na radiologia. No entanto, fora dessa finalidade natural, pode causar a morte ou deixar sequelas irreversíveis.

Olhando a minha volta, percebo que muita coisa mudou na última metade de século para cá. 

Muitas regras foram quebradas. Não há mais respeito aos naturais limites impostos pela própria natureza. O homem, no anseio de criar suas próprias regras, vai devastando a si mesmo e, com ele, arrasta o planeta para um futuro não muito difícil de imaginar.

Hoje enxergo um mundo cinzento. Um mundo desbotado. Um mundo que perdeu e tem perdido sua essência a cada dia. Um mundo que está cada vez mais deixando de brilhar e de ter vida em abundância. Um mundo de artificialismos. Um mundo repleto de adaptações. De tentativas e erros. Um mundo desencontrado, sem rumo, sem fim e sem sentido. Um mundo infeliz em sua essência. Sem vida e sem futuro. Um mundo que se desgarrou da finalidade primeira dos objetos.

O que esperar de um mundo assim? Qual o futuro desejado? Onde iremos chegar? 

Como disse: todas as vezes que o homem decreta suas próprias leis e regulamentos acaba mal. 

E você? Está fazendo bom uso dos objetos à sua volta? Lembre-se da diferença entre PODER e DEVER

"Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém" (1º Coríntios 6:12).

Para refletir.


Alipio Reis Firmo Filho

Conselheiro Substituto - TCE/AM   

    


  

     

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