domingo, 23 de agosto de 2026

DESAPEGUE-SE, RENOVE-SE, ESVAZIE-SE

Muita gente tem grande apego às suas próprias coisas. Há pessoas que chegam a ter ciúmes das coisas que tem. Há aqueles que não gostam, p. exemplo, que ninguém use seu automóvel. Muitas vezes, nem mesmo as pessoas de sua própria família. 

Esse é o lado humano de ser humano. Tudo muito natural. O coração humano é um grande mistério. Talvez a certeza de sua finitude tenha plantado no interior de cada um uma centelha de perpetuidade, manifestada pelo apego exacerbado ao mundo que o rodeia. 

Isso começa a ser um problema quando incorporamos o que usamos à nossa própria existência. As Coisas começam a ser uma extensão de nós mesmos. Como se fossem nossos prolongamentos. É como se nos agarrássemos nos bens materiais para que eles nos mantenham presos e firmes a este mundo. Uma espécie de "salva-vidas". 

Aqui está o problema. 

Com o passar do tempo essa atitude vai tornando nossa vida mais "pesada" sem, contudo, que percebamos essa pequena mas significativa particularidade. 

É preciso que tenhamos consciência que, como tudo na vida, também as coisas envelhecem. Tornam-se limitadas e inadequadas, comprometendo o bom uso que fazemos dela. Com o passar do tempo elas já não podem nos oferecer o que eram capazes de nos entregar no passado. Nossas necessidades do presente já não são as mesmas de outrora. Elas mudaram. Adquiriram novas características e matizes. Já são outras. Completamente diferentes do que eram há um ou dez anos atrás. 

O apego cego aos bens materiais não nos permite enxergar essas novas realidades. Insistimos em tentar improvisar, procurando contornar alguns desconfortos. É como se continuássemos a calçar o mesmo sapato cujo número já não mais comporta o tamanho do pé. Isso tudo porque decidimos estacionar no tempo, apegando-nos a tudo que nos cercava há alguns bons anos do passado. 

Você já prestou atenção em como o limo e o lodo se formam? 

Imagine um pequeno córrego recém-criado com a finalidade de drenar a água da chuva. Seu leito é de cimento, sem nenhum revestimento e com algumas pequenas irregularidades. Com o passar dos dias, as sucessivas águas que por ele correrão ganharão nova direção, até chegar ao destino final pretendido. Se voltarmos a esse córrego e observá-lo seis meses ou um ano a depois, provavelmente notaremos nele alguns pequenos elementos de cor escura ou esverdeada, chamados de limo e lodo.   O limo costuma ser formado por colônias de algas e o lodo por fungos e matéria orgânica. 

Se voltarmos a esse mesmo córrego 5 ou dez anos depois, é muito provável que a presença de tais elementos tenha aumentado significativamente. Evidentemente que estamos levando em consideração que não haja nenhum trabalho de MANUTENÇÃO do local. 

Assim é a nossa vida.

Quando nos apegamos tanto às coisas que nos cercam, não permitindo que elas se renovem, limo e lodo acabam crescendo com o tempo. O aspecto muda. Às vezes, o próprio cheiro do ambiente também muda. Só que não percebemos isso. Apenas os outros. Quanto a nós, nos acostumamos com essa realidade, como nada tivesse mudado. De fato. Nada mudou! Esse é o problema. O tempo passou e tudo continuou ocupando o mesmo lugar. 

Quando você usa o mesmo perfume por muito tempo, seu olfato acaba naturalmente se acostumando com ele. A gente já não percebe quando ele é doce ou cítrico. Somente quem está ao nosso redor é que consegue perceber essa sensação. 

Por isso, é importante nos renovarmos constantemente. Quando eu falo em renovação, não estou me referindo à compra do último modelo de iPhone, do automóvel recém-lançado, da televisão de última geração. Não. Estou me referindo às pequenas e significativas mudanças que devem acompanhar as nossas próprias necessidades de mudanças. 

Um tênis surrado talvez já esteja na hora de trocar. É possível que uma camisa ou blusa que te acompanhou por muitos anos já tenha que dar espaço para uma nova. É provável que o sapato que tanto você gosta também já deva ser passado adiante. 

Porém, todas essas renovações não podem ser "forçadas". As iniciativas devem partir de você e não movido, p. exemplo, pela força de uma publicidade ou de uma rede social - coisa, aliás, muito comum nos nossos dias. Você deve se respeitar. Você deve respeitar sua própria opinião. As trocas devem ser um produto de um feeling pessoal. Deve vir de dentro e não de fora. No entanto, uma coisa é fundamental: você deve estar aberto às próprias mudanças. Se você não abrir a porta de seu mundo para elas nela ali fazer morada, não haverá renovação. Tudo permanecerá como outrora.

É preciso que entendamos que tudo tem um prazo de validade. Nada é eterno. Há um dinamismo no mundo que nos cerca que exige RENOVAÇÃO. O Universo é uma prova disso. Nada está parado. Nada está estacionado. Há um movimento universal. Uma renovação a cada momento. 

No entanto, essa renovação deverá acontecer a seu tempo. No tempo oportuno. Nem mais, nem menos. Isso é você quem irá dizer. Mais ninguém. 

Sempre costumo compartilhar com pessoas mais próximas o seguinte princípio de vida: se você já não usa mais alguma coisa e essa coisa ainda pode servir a outra pessoa, passe-a adiante. Não fique com ela. Renove-se. Se, contudo, já não exista mais vida útil nessa mesma coisa, descarte-a. Não tenha receio de adotar essa postura. Garanto: ela irá deixar sua vida mais leve, mais livre e mais solta gerando paz e harmonia.  

Quando você adota essa postura, tudo mudará para melhor.  A felicidade, o bem estar e a paz estarão mais frequentemente com você. Seu semblante mudará (mesmo que você nem perceba). Sua vida se tornará mais viva. Novos horizontes serão percebidos. 

Esse é o "prêmio" de quem opta pelo desapego e pela renovação. 

Porém, antes de finalizar essa reflexão, uma última palavrinha. 

Fique apenas com o que você precisa. Permaneça com você tão-somente o que lhe será útil. Nada mais que isso. Numa palavra: esvazie-se.

Essa regra simples ajudará você a deixar a mesa de trabalho de sua existência também mais leve. 

Ficar com apenas o que for útil é, antes de mais nada, uma grande medida de SABEDORIA e de DESAPEGO. Essa regra simples de vida o ajudará a não carregar mais do que você suporta. Ajudará a remover pesos desnecessários. Combaterá excessos e prevenirá faltas. Permanecerá convoco apenas o NECESSÁRIO. 

Pense nisso. Reflita sobre isso.


Prof. Alipio Reis Firmo Filho



 

   

  

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