Há muitos anos atrás recebemos um filhote de uma gata siamesa. A partir de então, ela passou a ser o xodó da família. A convivência durou 20 anos. Um longo tempo. Tempo suficiente para nos acostumarmos com ela e ela conosco.
Exceto quando eu era criança, nunca fui de me apegar a animais domésticos. Com ela, entretanto, foi diferente.
Durante os 20 anos que ela esteve conosco passei a vê-la com carinho. Com um imenso carinho. Acredito que a recíproca era verdadeira. O curioso é que não costumava ficar próximo dela. Uma ou outra vez eu a pegava nos braços. Isto porque sempre nutri a ideia de que animais são animais. Não devem ser tratados como se humanos fossem. O meu amor por ela era grande. Eu diria imenso. Mas esse fato não me autorizava ou convidava a misturar o meu mundo com o dela. Penso que quando se gosta, o maior amor deve ser manifestado no coração.
Lembro que quando ela adoecia era um verdadeiro suplício. Não apenas para mim, mas também para toda a família. A preocupação era geral.
O tempo passou e em agosto de 2015 ela nos deixou. Foi uma tristeza só. Há época existia aqui em Manaus uma loja que vendia produtos veterinários e também oferecia um jazigo para cães e felinos.
Não pensei duas vezes. Reservei um para ela. Pelo contrato assinado, enquanto houvesse o pagamento anual, os restos mortais da querida amiguinha (ossos) seriam mantidos no mesmo local. Para mim, era uma forma de mantê-la sempre perto de mim e de nossa família. No fundo, foi a maneira encontrada de conservá-la via. Uma espécie de relíquia guardada com grande carinho e respeito por mim e pela família.
Lá se passaram 5 bons anos. Todos os anos lá estava eu para renovar a sepultura da companherinha de todas as horas.
Por esse tempo, alguns pensamentos começaram a me visitar. Todos eles falavam a mesma linguagem: é preciso deixar ir.
Confesso que esses pensamentos não me deixavam confortável. Rescindir o contrato significava abrir mão para sempre das únicas lembranças concretas da pequenina amiga. Do único cordão umbilecal que a mantinha unida a mim. É como se eu a abandonasse para sempre. Como se eu desligasse os aparelhos que a mantinham viva. Para mim, tudo isso soava como uma certa ingratidão, um desprezo, uma frieza que me incomodava profundamente. Afinal, ela - pensava comigo mesmo -, por bons 20 anos, sempre esteve ali ao meu lado. Não fazia sentido eu abandoná-la.
O tempo, no entanto, é o remédio para muitas feridas.
Ele foi o antídoto para curar algumas delas que teimavam em conviver em meu interior.
Pelas lentes do tempo, consegui enxergar finalmente a minha própria pequenez e o meu grande egoísmo. Até então, disfarçados de " um grande amor".
Não. Não era amor. Na verdade, nunca foi. A realidade brotou e veio à superfície.
Pensei: de fato, é preciso deixar ir. Já está na hora. Talvez, já tenha até passado da hora.
Foi quando decidi não renovar mais o contrato e, finalmente, abri minhas mãos deixando minha pequenina amiga bater asas e voar para o infinito.
É por aí. Essa experiência deixou um grande aprendizado para mim. Aprendizado que trago até hoje comigo e, muito provavelmente, irá me acompanhar até o último suspiro.
É preciso que aprendamos a deixar que as coisas vão. Afinal, elas cumpriram seus ciclos. Da mesma forma que cada um de nós cumpriremos os nossos próprios ciclos.
Às vezes, nos esquecemos que temos prazo de validade. Enxergamo-nos eternos. Infinitos. Às vezes, até nos julgamos indestrutíveis.
Não é bem por aí.
A grande sabedoria é reconhecermos que somos pequeninos e limitados. Que somos filhos da finitude. Que um dia tudo irá acabar. Não. Não somos indestrutíveis. Não iremos viver para sempre. Aliás, nada vive para sempre.
Quando temos plena consciência dessa realidade, tudo muda. Ao contrário do que muitos possam pensar, o próprio sabor da vida muda. Eu acrescento: para melhor.
Não podemos e nem devemos eternizar algo efêmero e passageiro. Devemos ter a consciência das limitações que existem ao nosso redor.
O episódio que acabei de contar a você que me lê, foi apenas um aperitivo.
Na verdade, devemos deixar ir não apenas nossos companheirinhos de quatro patas. Devemos deixar ir também as pessoas que amamos. Essa afirmação parece dura num primeiro momento, mas ela é carregada de SABEDORIA. Elas cumpriram seu ciclo. Foram até onde era permitido elas irem. Nem mais. Nem menos. Partiram quando tinham de partir. O amor que nutrimos por ela irá nos acompanhar pela eternidade, mas não devemos ser egoístas a ponto de reduzi-las a um punhado de ossos. Elas são muito maiores que isso.
Não há relíquia, por mais preciosa que seja, que possa ocupar o seu lugar. Não há relíquia, por mais preciosa que seja, que nos dê a autoridade de mantê-la viva pelo uso de aparelhos. Elas são muito maiores que isso.
Esse desapego não se põe somente em relação aos nossos amiguinhos peludos ou algum membro de nossa família. Ele deve abarcar tudo que é nosso e que nos acompanha no dia-a-dia.
Deixe ir o seu automóvel, deixe ir a sua casa, deixe ir o seu tênis, deixe ir uma blusa que você usou por bons anos, deixe ir o relógio que sempre te lembrou de seus compromissos, enfim, liberte-se. Desapegue-se. Lembre-se: ele concluiu o seu ciclo. Por isso, terá de ir...
...e nós não podemos ceder à tentação de desejar retê-los...
Eis um grande aprendizado de vida.
Isso não significa que você irá abandoná-los. De maneira alguma. Eles permanecerão para sempre em nossos corações e em nossa memória. Nisto reside o verdadeiro desapego.
Portanto, minha amiga, meu amigo, sempre que você se encontrar em situações semelhantes a alguma das que aqui retratei, pense consigo mesmo(a): é preciso deixar ir.
Para nossa reflexão.
Prof. Alipio Reis Firmo Filho
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