sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O DINHEIRO DA (Á) SAÚDE (?)


(*) Texto publicado na Coluna Gestão (do autor),  no FATO AMAZÔNICO (www.fatoamazonico.com)


Segundo os dicionaristas, “Corrupção” é sinônimo de  “deterioração”, “decomposição física de alguma coisa” ou “adulteração das características originais de algo”.

A corrupção deteriora, corrói e consome tudo o que está à sua frente e ao seu redor. Como um ácido, queima até o mais resistente metal. Vira tudo de pernas para o ar; desarruma e instala o caos. A desorganização e a balbúrdia são suas cúmplices inseparáveis. Não há como não se deparar com as três, sempre unidas, de mãos dadas, confabulando a favor de interesses próprios e espúrios.  

Não existe a pequena ou a grande corrupção. Todas são uma só coisa, e nenhuma é maior que a outra. Não importa se subtrai um punhado de dinheiro ou uma vultosa quantia. Possuem a mesma estatura e as mesmas digitais. O que por ela é tocado transforma-se em ouro e veneno. Parece dúbio, mas não é.  O ouro serve para saciar a ganância de alguns; o veneno, para perder a vida de milhares.  

Se é certo que a corrupção é única, não havendo como as distinguirmos; impossível considera-las como sinônimas, segundo suas consequências. São as consequências e não as causas que marcam a conduta do gestor corrupto. É pela extensão do dano que medimos o tamanho do ato corruptor. Uns repercutem mais, outros menos. Algo semelhante ao veneno dos animais peçonhentos.   

Uns são mais letais. Matam mais depressa. Outros, deixam a vítima agonizando por horas, às vezes, dias a fio para, finalmente, dar cabo dela. Quanto mais fulminante o líquido, mais perigoso será.

Assim também acontece no setor público.

Há corrupções que matam mais depressa que outras. Decretam a ruína da vítima imediatamente, sem rodeios. Deliberam, sem defesa, o término da vida. Seu poder letal é infinitamente superior a qualquer outra.  Diferentemente da corrupção em áreas como no transporte público, na assistência social, na infraestrutura urbana, na educação, na cultura e tantas outras; a corrupção na Saúde maltrata mais do que qualquer outra. Justamente porque ela fere mais, machuca mais, humilha mais. Ela reduz ao pó a dignidade da pessoa humana. Literalmente, a vítima da corrupção na Saúde rasteja a procura de abrigo e alívio sem poder encontrar. Bate à porta de um. Bate à porta de outro, mas a resposta é sempre a mesma: “não temos como ajuda-lo!  Falta tudo! Do Gaze à anestesia; do esparadrapo à mesa de cirurgia”. E logo no momento em que mais precisamos, quando o corpo está frágil, sofrendo o peso da enfermidade! O paciente quer alívio e não encontra. O jeito é voltar pra casa e sofrer, sofrer e sofrer ou, quem sabe, morrer de uma vez por todas, pondo fim ao sofrimento.

Ao contrário de todas as demais manifestações da corrupção, a malversação dos recursos na Saúde é HOMICIDA. Ela MATA, sem dó e sem piedade. Num só golpe, ela retira a vida de milhares de pessoas, lembrando muito o holocausto nazista. Seria crime hediondo? Talvez. Mas penso que é algo muito pior que isso. Tão pior que merecia a pena perpétua (muito embora nosso regime constitucional não a admita).   

Mas a onda da corrupção na Saúde não devasta apenas os que procuram os hospitais públicos e postos de saúde. Todos os membros da família sofrem junto com o paciente, além de amigos e conhecidos. A uma, porque acompanham o doente em sua via crucis. A duas, porque são testemunhas ocupares do trajeto doloroso e infinito. É como um efeito dominó. Após a queda da primeira pedra, a segunda vai abaixo. Depois dela uma terceira, uma quarta e assim, sucessivamente, sem que tenhamos ideia do tamanho do estrago. Por isso disse que a corrupção na Saúde é mais letal que todas as demais. O enfermo não é o único moribundo. Por trás dele poderá haver dezenas, talvez, centenas de almas, todas envenenadas, sem antídoto ou morfina.  Ela não mata apenas os pacientes. Corrói as almas e os sentimentos de milhares de pessoas que, com ele, sofrem as consequências da ganância de alguns.  

Por tudo o que aqui foi dito a corrupção na Saúde é um capítulo à parte e assim deveria ser tratada. Não há como corrigir seus estragos. Vidas já foram ceifadas. Ainda que todo o dinheiro aplicado irregularmente retornasse não haveria como reparar o dano. Sua marca permanecerá para sempre. É algo definitivo e acabado.

Nesses meus 24 anos de vida pública aprendi uma coisa: é possível até que falte dinheiro na Saúde, mas a quantia aplicada nos últimos anos em nosso Estado teria sido muito maior se não tivessem tido o destino que tiveram.  Muito provavelmente também inúmeras vidas teriam sido poupadas. Com efeito, qualquer que seja a pena aplicada  ainda assim será pouca quando comparada com o rastro de sangue, dor e sofrimento de milhares de famílias amazonenses.

Que a justiça seja feita! Se não a dos homens, a de Quem tem as chaves da vida e da morte!

ALIPIO REIS FIRMO FILHO

Conselheiro Substituto – TCE/AM