sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

ANJOS E DEMÔNIOS

Fomos apresentados a este mundo sem ao menos sermos consultados se queríamos realmente conhecê-lo. Quando tomamos consciência, já estávamos imersos na realidade que nos cerca. Enfim, chegamos. Olhamos ao nosso redor e paulatinamente aprendemos a nos conectar com o mundo e com nossos semelhantes. Familiares, colegas de sala de aula, amigos de infância, companheiros de profissão. 

Algumas dessas pessoas só passam alguns instantes em nossa presença. Outras, permanecem algum tempo. Depois nos deixam como se nunca as tivéssemos conhecido. A vida é muito engraçada. Nos une e nos separa ao mesmo tempo. Nos faz sorrir e chorar compulsivamente. 

Entre os inúmeros personagens que cruzam nosso caminho, alguns já identificamos de cara: anjos em pele de cordeiro. Esses seres angélicos são pessoas amáveis, com sorriso largo no rosto, dispostas a nos ajudar e colaborar para que sejamos sempre felizes. Pessoas que vibram com nossas conquistas e com nosso crescimento pessoal e profissional.  

Esses seres não somente aparentam ser o que são. Eles são o que são. Transparentes, verdadeiros, objetivos e sem rodeios. Para expressar o que realmente sentem por nós, não fazem uso apenas das palavras ou do sorriso, mas recorrem quase sempre às suas atitudes. Muitas vezes, eles não precisam dizer uma única palavra. O que fazem (ou o que deixam de fazer) sempre contribui para a nossa felicidade. Não importam que estejam longe ou próximos de nós. 

Há, porém, uma outra categoria de indivíduos que algumas vezes vivem nos tirando do sério. Testam nossa paciência. Muitas vezes até com certa aspereza. Tais pessoas são duras e aparentemente insensíveis. Nos cobram. Nos pressionam. Fazem exigências que nos deixam perplexos. Em muitas ocasiões até nos levam às lágrimas e nos mergulham num mar de tristeza e solidão. Em relação a eles, é difícil enxergar alguma centelha de luz. São pessoas escuras. Sem sentimentos. Frias e insensíveis. No entanto, são também nossos amigos. Verdadeiros anjos em pele de demônios. 

O curioso desses indivíduos é que precisamos de uma boa caminhada nesta vida para reconhecê-los. Às vezes, cruzamos a linha de nossa existência sem ao menos identificá-los. Não importa. As sementes plantadas por eles germinaram e, o que é melhor, renderam muitos frutos. Isso é o que importa. As palavras amargas e as experiências duras foram apenas instrumentos usados por eles para nos fazer crescer e frutificar. Uns 30 por um. Outros 60 por um. Alguns 100 por um. 

Tais indivíduos talvez sejam os que mais colaboram para o nosso crescimento. Nos amam tanto que não medem palavras para nos dizer a verdade. Para nos indicar o caminho. Para nos apresentar às saídas. Sim. Verdadeiros anjos em pele de demônios. Sua beleza não é logo identificada por nós. Às vezes, só muitos anos depois é que nos damos conta do quanto eles nos ajudaram na caminhada de nossa existência. 

Mas a vida não são apenas flores. Há muitos espinhos também.

Há indivíduos que nos dão tapinhas nas costas. Nos tratam com gentileza e até com uma educação impecável. À primeira vista parece que até já os conhecíamos há mais tempo. Palavras doces regam um diálogo marcado por uma sinceridade gostosa de ser degustada, mas rasa quanto à  profundidade. 

Em nossa presença manifestam uma atitude. Quando distantes de nós, mostram realmente o que são. Com seus dardos inflamados prontos para nos devorar. No fundo, não gostam de nós. Não desejam o nosso sucesso. Incomodam-se com nosso brilho. Sentem náuseas sempre que conquistamos uma vitória. Verdadeiros demônios em pele de cordeiro. 

Quanto a estes, às vezes também passamos uma vida inteira para nos darmos conta do que verdadeiramente são. Convivemos diariamente com eles, às vezes, por anos a fio e nem notamos nada. Absolutamente nada. A mentira, porém, tem pernas curtas. Muito curtas, por sinal. Não adianta se esconder. O rabo sempre fica do lado de fora. A verdade sempre vem à tona. O problema é que até lá já sofremos. Já tivemos experiências amargas e dolorosas que deixaram em nós cicatrizes que vão nos acompanhar durante toda a nossa existência. Só depois. Muito tempo depois é que nos deparamos com uma realidade dura, que nos causa assombro e desapontamento. Esses demônios são seres ardilosos. Prontos para nos devorar e nos fazer infelizes. Destes, devemos nos afastar, pois, do contrário, seremos convidados a beber de seu próprio veneno. 

Por fim, há, ainda, uma quarta categoria de indivíduos. Assim como os primeiros, já mostram logo o que são. Ásperas, arrogantes, estúpidas e ignorantes. Pessoas que convivem perfeitamente com o mal. Indivíduos que não escondem o que são: demônios em pele de demônios. De uma certa forma, são verdadeiros em suas atitudes. Não se preocupam em manifestar o que realmente são ou pretendem ser. Não vivem sob as aparências. Caminham na escuridão. Desejam apenas o mal. Por isso, não são difíceis de serem reconhecidos. 

Destes devemos também nos afastar. Quanto mais longe melhor. A distância é o melhor remédio. 

Em relação a tais indivíduos a própria natureza se encarrega de apartá-los. Da mesma forma que o joio é naturalmente separado do trigo. As trevas não resistem à luz. A luz os incomoda muito. Não suportam a claridade. Pessoas de bem são sempre indivíduos indigestos. Por isso, são como os polos opostos de um ímã: repelem-se mutualmente. Não há como admitir uma convivência pacífica e duradoura. 

Esses quatro grupos de indivíduos estão presentes em nossa vida. Temos de ter a sensibilidade necessária para identificá-los. A cada momento. A cada experiência com nossos semelhantes. Às vezes, pode ser uma equação difícil de elaborar. Em meio às demandas da existência, muitas vezes perdemos a capacidade do uso da razão e do bom senso. Muitas vezes, somos movidos pelo coração, tornando-nos presas fáceis das trevas. 

Nesse reduto, a lição bíblica funciona como um grande farol em nossa vida: orai e vigiai! Sempre!


Prof. Alipio Reis Firmo Filho